quinta-feira, 11 de junho de 2009

Telefonema


Alô? Alô?... Ah, ainda não disquei. Este telefone não para de chiar. Desde que foi instalado ele vive com este barulho estranho. Chiiiiiiiiiiizzzz... É tudo volátil. Tenho a impressão de que alguém do outro lado já me chamou. Não sei se foi uma interferência terráquea ou do além. Não sei. Escutei metade do meu nome no chiiiiiiiiiiizzzz. Desliguei. Desliguei antes que pudesse escutar de novo.

Agora são dez da noite de uma sexta-feira, 16 de agosto de um ano que eu sempre me esqueço ao tentar lembrar. Comi um pizza inteira, sozinho. Tudo bem que não foi uma grande, foi uma média, mas, antes eu ficava satisfeito com uma pequena. Foram seis opulentas fatias para o meu estômago. Acho que fome tem a ver com solidão. Solidão provoca fome. Quando nossa barriga ronca, é mais um grito desesperado por companhia. Seja qual comida for, até estragada, mas é a súplica por um preenchimento. E, quando a gente se sente só, a comida já deglutida parece que não faz efeito. Parece que o saco fica vazio de novo. Não para em pé.

Hoje aproveitei o tempo livre para fazer tudo o que tinha de fazer. E o que não tinha também. Inventei coisas. Pintei uma parede, cortei as unhas de uma mão e roí as da outra – porque não consigo segurar direito a tesoura com a mão esquerda -, lavei os cabelos com shampoo e condicionador, li dois jornais antigos, assisti TV. Eu não aguento mais assistir TV. Liguei para o SAC da operadora de TV por assinatura. Quis consultar alguém, ouvir uma voz e esquecer esse maldito grilo que está enfurnado em algum lugar.

Alô?... Ah, está chamando. Mais uma vez. O telefone pulsa. Ao longe, surge uma voz.

Ai! Ela atendeu. Ela que eu estava esperando, ela! E ela atende sonolenta. Sinto que já ia embora, sinto que já encerrava o turno, sinto que olhava os biombos vazios, os computadores desligados, os copinhos descartáveis de plástico fora da lixeira, sujos de batom.

Ela inicia com formalidades, coisa que não precisava. Devia iniciar com intimidades, isso sim. Era o que eu queria. Intimidades a essa hora da noite. Quando se tem milhares de fios e quilômetros nos separando, se quer intimidade, não formalidade. Ela diz “Serviço de atendimento ao consumidor. Boa noite! Meu nome é Marina, em que posso lhe ser útil?”.

Marina, se você pudesse imaginar. Se você pudesse mesmo prever tudo em que me seria útil. Você nem sabe, Marina. E quando eu tenho seu nome, seu nome aqui comigo – até escrevi num papelzinho pra guardar -, me sinto mais íntimo. Nada de formalidades! Esqueça a empresa. Esqueça o roteiro que eles te entregam junto com o pão e o café. Vocês não são robôs, nós não somos zumbis. Nós, clientes, somos seres humanos. Também nos apaixonamos por funcionários de call centers. Principalmente se seu nome for Marina, sua voz for doce, crescida e com sono também.

Eu deixo tudo mudo, tudo vagando pelo ar, pelos cabos de fibra óptica, ponho tudo em risco, enquanto fico calado por alguns instantes, pensando essas loucuras todas, enquanto Marina precisa ir embora, fechar o zíper da bolsa, pegar o próximo ônibus.

“Alô? Senhor? Senhor?...”, Marina insiste. Comprometida. Ela só não quer perder o cliente na linha. Não quer que ele vá dormir com a única programação da TV sendo os chuviscos. Para os demais, isso seria o suficiente, seria surpreendente até. Mas Marina não se importa se o solitário homem que ela vai perder é o futuro pai de seus filhos, o cara que vai resgatá-la de todo e qualquer call center da vida, dos ônibus apinhados de gente. Marina, comigo você só usará uniforme para realizar fantasias sexuais.

Marina, eu não aguento mais assistir TV. Entendo seu trabalho, então, antes que você me interrompa oferecendo um pacote com mil e um canais, canais sobre viagens, reality shows, filmes, seriados, programas de auditório, eu não quero! Não quero, está bem?! Não quero canais com o melhor do esporte. É a coisa que eu menos pratico na vida. Não quero canais sobre futebol, eu não gosto de futebol. Não sou como esses caras por aí que gostam de futebol. Também não estou a fim do pacote de canais adultos. Não quero mais desperdiçar meu tesão com atrizes tailandesas traficadas para o porão de alguma casa dos estados unidos.

Marina foi tocada, pela minha bênção, pela minha conversão. Bastou um segundo, um segundo de hesitação, e lá estava ela, com o telefone em uma mão, com a outra entre os cabelos. Com aquelas unhas vermelhas, lá estava ela. E se eu pudesse lá estar também, se isso fosse possível, enxergando tudo de cima, eu veria uma milimétrica gota de suor correndo rapidamente entre seus seios, fixando-se entre os dois, criando uma ponte. Eu não pedi volumosos seios. Marina, para mim, poderia ser só Marina, somente isso e sua voz, como um fantasma. Porém, já que os fartos seios lá estavam, batizados por minhas palavras e seu suor bento, eu não reclamaria. Nunca.

Marina gaguejou. Depois de hesitar com o silêncio, depois de repensar minha voz, ela gaguejou. Acho que pensava sobre o quão horrível eu era, fazendo-a perder sua noite, ficar aterrorizada com um homem obsessivo, que acredita em amor à primeira ligação.

“O senhor pretende cancelar sua assinatura então?”, ela disse, com a voz mais doce do mundo, com a voz mais delicada, amável, afável, fofinha. Ela disse, com a voz menos compreensiva do mundo. Eu não, eu não pretendo cancelar, eu não pretendo cancelar nada, a não ser eu mesmo. Quero que as contas continuem chegando, entulhando o vão da porta, me lembrando o que eu comprei, com o que eu gastei, como me endividei, como me dei de presente, como fui recolhido para o estoque dos defeitos.

Olha, Marina! Eu não pretendo cancelar coisa nenhuma, tudo bem? Sério, eu não liguei pra cancelar nada. Por mim as coisas continuam sem cancelamento. Sabe o que eu quero cancelar? - me contradizendo - Imagina? - Dessa vez, não falei sobre cancelar eu mesmo. Dessa vez, Marina escutava. Tinha de impressionar de maneira positiva. - Quero cancelar nossa distância, Marina. Quero você aqui, comigo. Quero assistir filmes, seriados, reality shows, programas de auditório, todos com você ao meu lado. Você entende o meu lado? Entende que eu seja capaz de desejar isso?

Marina pareceu querer entender. Riu e chorou rapidamente. Eu ouvi nitidamente. Marina se esforçou para me entender, mas era em vão. Aquela maneira, aquele modo que segui, o jeito que pude tocá-la, era impraticável. Eu poderia ser qualquer um. Poderia ser horrível, por dentro e por fora. Marina nunca teria uma resposta.

Ela desligou o telefone educadamente, formalmente, sem quebrar meu coração, mas também sem ajudar a remendá-lo. Mas eu não culpo Marina. Ela fez o que pôde. Senti isso, mesmo sem que ela tenha me comunicado.

Acordei com o corpo doendo, com fome, com mais uma conta passando por debaixo da porta, com uma torneira ligada – provavelmente do vizinho. Acordei com a TV sintonizada em um desses canais de notícia. Tirei a remela dos olhos para ver Marina chorando enquanto se agarrava desesperadamente ao microfone da repórter. A reconheci pela voz. Foi aí que eu soube que era a minha Marina. Ela falava trêmula sobre o terrível crime acontecido naquela noite: seu namorado fora assassinado por um homem armado com um revólver. Ele teria reagido à tentativa de assalto e levou dois tiros na face. Uma mulher que estava ao seu lado no ponto de ônibus também foi baleada e está no hospital. Marina chegou logo depois.

Marina chorava copiosamente, e era tão triste aquele choro. As lágrimas que varavam o rosto eram tão diferentes da gota de suor entre os seios. Mas Marina não era diferente do que eu imaginava que fosse, mesmo com a maquiagem borrada. Eu salvei meu grande amor.


2 comentários:

Rafaela Gimenes disse...

UAU.

Você se supera, sempre.

Igres Leandro disse...

Rafaela, obrigado pelo prestígio.

Beijos.