sexta-feira, 7 de agosto de 2009

O Começo


Quando foi a primeira vez que você escutou música? Quando foi que nós, pela primeira vez, escutamos um som musicado? Na barriga da mãe? Não, não. Na barriga da mãe a única música possível é o chacoalho do líquido amniótico. É impossível determinar e ilustrar o exato e primeiro momento que nossos tímpanos recém-chegados ao mundo escutaram melodia. Foi apagado, deletado de nossa memória, ou pelo menos só vive em nosso subconsciente, e, dependendo da música, quem sabe nossos traumas não vêm daí? Não, não vêm. Exagero.


Buscando o primeiro registro musical da minha vida, retorno a músicas que me marcaram bastante, justamente por serem o primeiro contato indelével que tive com o universo musical e, a partir daí, fui começando a entender o que se passava e trabalhar meu senso crítico para separar o bom do ruim, o clássico do duvidoso.

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Não fiz parte da geração MTV. Não tinha TV a cabo e não cresci entre essa linguagem rápida, pop e, às vezes, superficial. Cresci tendo contato esporádico com o que tocava, com o que fazia sucesso na década de noventa, com o que reverberava em meus ouvidos, fruto do gosto dos outros.

Lembro bem, ainda com uns cinco anos de idade, de minha mãe escutando "Cálice" de Chico Buarque e Gilberto Gil, "Paralelas" de Belchior e "Borbulhas de Amor" de Fagner.

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Até então, música para mim estava ligada ao rádio, ao aparelho de som. Aquela caixinha era a casa das músicas e dos intérpretes. Não durou muito essa ideia quando eu assisti pela primeira vez a um videoclipe. Foi por acaso, e era estranhíssimo, porque os vídeos musicais se apresentavam durante o espaço reservado ao horário político na Rede Globo. Enquanto os outros canais exibiam os candidatos eleitorais e suas promessas, a emissora do Sr. Roberto Marinho apresentava clipes já antigos.

Primeiro vinha um tela preta de alguns segundos, depois uma mistureba alucinada. Tinha "YMCA" do Village People, "It's Raining Man" das Weather Girls, "Eye Of The Tiger" do Survivor, "Billie Jean" do Michael Jackson e uma música horrenda cantada em inglês pelo Fábio Júnior e uma Loura que eu não me lembro quem é.

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É verdade que eu adorava o Tantantan, de "Eye of The Tiger", tema de Rocky. Já dava vontade de armar os punhos e sair boxeando. Adorava também o vídeo de "Billie Jean", principalmente na cena do chão se iluminando a cada passo. Em "It's Raining Man" a sensação que predominava era o de estranheza. O que faziam duas gordas com guarda-chuvas na mão, saltando por uma janela e apreciando uma chuva de homens mal recortados na edição do vídeo? Depoisss eu entendi a letra.

A TV Cultura, boa TV Cultura, também exibia alguns clipes durante sua programação pra tapar buracos, entre eles, alguns que eu não me cansava de ver como "Qualquer Bobagem", originalmente dos Mutantes, mas aqui na versão do Pato Fu e a também "Primavera", dos Los Hermanos.

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Nessa época, as mídias que circulavam pela minha mão eram CDs, a maioria cópias, e as velhas fitinhas K7, que também eram vendidas em camelôs ou lojinhas de disco que acabavam faturando mais com os piratas mesmo. E numa fitinha K7 preta, eu gravava a maioria das músicas que fazia sucesso e rolava pelas rádios locais, mas a que sempre permanecia era "Sobre O Tempo", do Pato Fu. E, sobre o tempo, engraçado como vamos amadurecendo, atravessando as fases da vida, ficando com o ouvido mais crítico, mas também guardando um pouco de cada coisa.

Das músicas relatadas neste post, muitas ainda tem lugar na minha playlist.


3 comentários:

Rafaela Gimenes disse...

Você tem uma memória do cão, desculpe falar.

Ah, e outra coisa, não gosto da sua "ideia" sem acento. o.Ó

Lembro-me que a primeira música consciente de Cartola que ouvi Cazuza cantava: "O Mundo é um Moinho".

E a primeira música que gostei de Adriana Calcanhotto, e sem saber, foi de um Cd que eu comprei de uma novela que passava na Globo e tinha o nome de "Pelos Ares":

http://www.youtube.com/watch?v=ZELQWIsp7RI

Igres Leandro disse...

Hahaha.

É,Rafaela, idéia sempre me remete àquela lâmpada que surge em cima da cabeça de alguém, sabe? Ideia sem acento parece lâmpada queimada, mas a gente tem de se acostumar. Pelo menos eu tô tentando.

Lembro de minha mãe escutando Cazuza também. E e eu gosto até hoje.

Acho que a primeira música que escutei da Adriana Calcanhotto tocava numa novela também. Conheço essa música que você mandou. A voz dela é linda.

Janine disse...

Não lembro da primeira vez que ouvi música; mas lembro das primeiras vezes que a música começou a significar alguma coisa pra mim. Mesmo que eu não entendesse nada, significava alguma coisa. Eu tinha uns 6 anos, um walkman e apenas uma fita k7 gravada de um cd emprestado do aerosmith, que ficava ouvindo olhando pela janela do carro quando a família ia passar uns dias aqui no Rio (na época eu morava em sp). Aquela sensação que se tem quando se ouve uma música que você vai gostar muito pela primeira vez, e a vontade de não parar de ouvir... até enjoar. E depois de um certo tempo sem ouvir, se você escuta de novo, vem aquele gostinho de 'descoberta' de novo, daquela combinação de sons que é única. Ah, tô viajando já. Muitas das coisas que eu ouvia ainda estão na minha playlist até hoje, acho meio cruel tratar música como coisa descartável, sabe? de ouvir naquela época porque tá bombando e depois não mais, mesmo que os gostos mudem. Já falei demais, adorei o texto...