quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Teresinha


Teresinha tinha um seio maior do que o outro. O esquerdo era maior do que o direito, e isto ela atribuía a um milagre dos céus. O coração era crescido pelo amor a Jesus. O peito era empurrado para a frente, grudado pelo suor com a cruz de madeira que carregava no pescoço.

Seus cabelos não tinham uma cor bem definida. Não se encaixavam em paleta alguma. Era aquela tonalidade que não sobrevive na mente dos outros, que parece tão apagada quanto inexistente. Não sei se pardos, se grisalhos, se castanhos, se ruivos, se loiros. Os cabelos de Teresinha faziam crer que somos todos daltônicos.

Morava só. Tão só que parecia viver em quarentena, tão só que suas flores pareciam de plástico. Não tinha TV, nem computador, somente um aparelho de som quebrado que não tocava CDs. Talvez seu lugar preferido da casa fosse a sala, lá havia um armário antigo e uma poltrona verde desbotada, acolchoada ao extremo. Sentava na poltrona por horas, até não mais sentir sua bunda inexistente. Ficava lendo à meia-luz sua leitura obrigatória regozijante, a bíblia. Sofria de hipermetropia; sete graus em cada olho. Parecia milagre dos céus também, pois aqueles olhos danificados eram o registro do quanto sua visão foi destinada ao Senhor e seus ensinamentos.

Não tinha filhos, não teve namorado, nunca transou nem se masturbou. Era tão intacta que que nem seus pelos pubianos foram mexidos. Estavam todos lá fazendo um grande volume, um chumaço impressionante. Seu único homem era Jesus, o único capaz de possuí-la por inteiro sem rompimento de hímen. Amém.

Saía de manhãzinha para aproveitar o sol, escutar o canto dos passarinhos e comprar pão. Levava um saco de pães quentinhos para casa e distribuía alguns pelo caminho entre os mendigos que surgiam. Quando chegava, era o mesmo ritual de sempre: faca, manteiga, pão, café. E vinha a azia de sempre também, lhe queimando como se tivesse satã nas entranhas espetando tudo com o seu tridente.

Em apenas um momento de sua vida Teresinha pretendia ficar bonita, era quando ia à igreja. Talvez não pensasse bem em ficar bonita, mas apenas em ser igual às outras, às velhinhas que ela começara a se tornar. Com 45 anos a aparência era de bem mais. A maquiagem lhe acrescia velhice ao invés de subtrair-lhe e o kit básico com batom e pó para rosto tinha mais tempo de existência do que ela mesma. Com a face carregada, pintada, quase como quem vai para a guerra, ela exalava a fedentina da maquiagem mofada, assim como as outras velhinhas, asseadas mas fedidas, com seus terços envoltos nos braços. Assistia a missa e fingia entender o sermão do padre que arrastava as palavras, balbuciava algo e de claro mesmo só o amém!, mas só o amém era necessário. O que o precedia era tudo de melhor, de positivo e benéfico. Ela tinha certeza. Era a casa de Deus.

Asseava-se numa enorme e velha bacia que fazia de banheira. Acostumara-se a tomar banho assim desde pequena. Morava num sítio com os pais, e enquanto os primos improvisavam um chuveiro erguendo uma garrafa com um funil na boca, ela preferia se esbaldar na bacia, sozinha. A bacia das lavadeiras, das mulheres de fé que lavavam roupa o dia inteiro e cantavam à beira do rio num tom peculiar. Terezinha tinha fixação pela bacia, por ser envolta pelas águas, por batizar-se todos os dias. Um manto sagrado após o outro, uma benção após a outra. Seu coração enchia-se com apenas um sentimento por parecer desconhecer os outros. Ele batia compaixão... a quem?

Um dia ditado pelo sino da igreja, nutrido pelos pães e cerejas de sobremesa, percorrido pelas sapatilhas, vividos como numa ilha, transbordados pela bacia, satânicos pela azia, abençoados pela liturgia, iguais como ela queria.

Foi num dia tão igual aos outros, tão frouxo e imperceptível, tão dopado como o padre tonto pelo sangue de Cristo que Terezinha aguardava para atravessar a rua. O terço colado no peito, o vento passando pelos cabelos estáticos, o braço pressionando com força a bolsa contra o corpo. Terezinha temia um assalto, um pivetinho, trombadinha, moleque, cheirador, desses que andam em grupinhos, e empurram, rasgam, arrancam, devoram sem piedade, derrubam no chão sem piedade. Prevenir é sempre melhor do que remediar.

Sinal verde e suas perninhas peludas partem. Pequenos passos nada pretensiosos. Como gueixa, como queixa de quem esperneia para não andar mais rápido. Teresinha observa as faixas de pedestres e vê nelas a Via Crúcis, ataduras envolvendo um fundo incerto, profundamente negro. Sente uma estranha leveza no ser, como se a alma evaporasse pela boca, mas foram apenas gases. Enquanto o ônibus lotado lhe arrastava através do asfalto mais quente pelo seu sangue novo, ela teve a certeza do pensamento que a acompanhara por toda a vida: Deus não existe.

2 comentários:

Janine disse...

uau.

(eu não sei por que, me lembrou a macabéa de 'a hora da estrela', da clarice lispector)

Igres Leandro disse...

Na mosca, Nine.

Eu já tinha uma Teresinha na minha cabeça. Quando li A Hora da Estrela recebi uma ajuda para terminar de compor a personagem. Só é uma vida mais desesperada, mais radical.

obs: saudades da sua presença, Nine.