domingo, 20 de dezembro de 2009

Sobre a não existência de um deus


Deixando de lado as figuras da cultura pop e as amenidades do dia-a-dia, quero palavrear sobre algo mais profundo (ou não?), algo difícil de ser abordado, caminhado, não tão fácil como Jesus fez sobre as águas. Falarei sobre crença, ou melhor, descrença, a minha descrença de existência de qualquer ser metafísico: Saci-Pererê, Deus, Papai Noel, duendes, fantasmas em geral e todo o resto. Peço de antemão desculpas se alguém sentir-se ofendido com este texto, mas só existem duas formas de lidar com isso: ou se tem a cabeça aberta, capaz de absorver e filtrar opiniões alheias, separando o razoável do descartável e respeitando mesmo o que não se concorda, ou simplesmente se envolve automaticamente em um escudo impenetrável, rebatendo previamente tudo o que possa ser dito com argumentos pífios numa atitude desesperada de não entrar em contato com a perigosa e contagiosa verdade de outro. A última opção me parece um tanto quanto duvidosa para alguém que diz ter fé, a “verdadeira fé”.

Para mim, ter uma religião e acreditar em um determinado deus é algo estritamente cultural. Se assim não fosse, não teríamos os milhões de deuses espalhados pelo mundo, cada um com suas particularidades e excentricidades, respondendo aos anseios de seus locais de origem, mas capazes também de corresponder a sentimentos universais.

A discussão sobre a existência ou não existência de Deus nunca terá fim, porque de um lado a argumentação se faz através de provas e da razão, de outro, se dá através da fé - que não exige nada para existir, é absoluta. Existe por si só. E então, como dois pontos de vista de níveis tão diferentes – materiais e imateriais – podem entrar em embate e daí formar uma síntese? Não sei.

Nós podemos avaliar Deus de várias maneiras, e mesmo num contexto único, em uma situação onde todos acreditam venerar o mesmo deus, o que existem são deuses diferentes, de intensidades, valores e comportamentos diferentes. É o que acontece quando um criminoso se prepara para mais uma ação delituosa e pensa “Se Deus quiser vai dar tudo certo” ou “Deus nunca me deixa na mão”; quando alguém morre e dizem “Deus quis assim”; quando um casal tem um filho deficiente e fala “foi um presente de Deus”... Enfim, estão sempre desvirtuando, criando e sobrepondo pontos basilares de Deus. Mas este comportamento na maioria das vezes não é planejado, não é malicioso, é próprio de quem crê e projeta na figura misteriosa de Deus a sua própria imagem. Quando alguém afirma se comunicar com um ser divino, transcendental, se realmente imagina que isso seja possível, acredita que obtém alguma resposta, não faz nada mais do que falar consigo mesmo, como nos tempos de amigo imaginário – o que não era um absurdo na infância, mas passa a ser na fase adulta.

O ser humano é isso, tem necessidade de crer em algo superior; de jogar a responsabilidade nas costas de mais alguém; de criar um mundo fantasioso, fictício; de poder compartilhar um sentimento universal. É algo inerente ao ser humano. Assim como nós criamos os romances, as histórias, os filmes, os videogames mais fascinantes e imersivos, que nos permitem ser quem quisermos ser e fazer coisas possíveis apenas em um mundo imaginário, criamos também um ser responsável por reger o que é grande demais para nós, pequenos seres, e responder de forma mais descomplicada o que ainda não somos capazes de responder.

Primeiro que, para quem crê com o mínimo de conhecimento possível, alguns atributos de Deus existem de forma incontestável: ele é onisciente, onipotente e onipresente. Ou seja, para quem acredita nessa força maior, soberana, estas três qualidades são próprias da natureza de Deus. Ele tudo sabe e tudo vê, e me vê digitando este texto que nega sua existência; ele tudo pode, e pode me fazer ter um ataque cardíaco neste exato momento (mas não vai, porque me ama); ele está em todos os lugares, inclusive aqui do meu lado.

Resumindo, se Deus realmente existe e nos criou, ele nos tem como hamsters que andam de lá para cá e morrem. Nada mais do que isso. Porque Deus não interfere, não mesmo, em nada. Se você tiver uma arma apontada para a cabeça e rezar de forma veemente, da maneira mais emocionada que puder, e explicar sobre os seus filhos que dependem de você e sobre seus projetos sociais que beneficiam milhares de pessoas, depois de puxado o gatilho, a arma pode até não disparar, mas em 99% das vezes ela vai. Rezar, no sentido de que alguém vai te escutar é perda de tempo, a não ser que a oração realmente te fortaleça, o faça ficar mais confiante e seguro. É semelhante quando falamos conosco e repetimos “eu vou conseguir, eu vou conseguir!”. Orar é auto-sugestão. Vejamos o exemplo de alguém que perde um importante documento e passa a procurá-lo desesperadamente, sem lograr êxito. Pois bem, o que resta é recorrer à oração. Depois de vinte minutos clamando aos céus para se achar o bendito documento, finalmente lembramos onde ele está: dentro da segunda gaveta do criado-mudo. Alguém escutou seu pedido? Depende, se você estivesse muito desesperado, talvez o vizinho pudesse ter ouvido. A verdade é que, a mente, antes atormentada e distraída, passou a focar-se em um só ponto, o documento. “Meu Deus, abençoa a minha memória e faça com que eu ache esse documento. Me ajuda, Deus, preciso disso daqui a 20 minutos. Preciso do documento, o documento, o documento!”. E assim, voltamos todo o pensamento disperso para o ponto essencial. Orar requer concentração. Sob esse ponto de vista e alguns outros, pode até ser benéfico, mas não entorta talheres, não mexe copos e não é uma forma de se comunicar com seres divinos.

O mundo definitivamente não é um lugar justo. A justiça só seria absoluta se fosse dosada de forma correspondente a cada indivíduo e a cada caso, mas não é isso que acontece. Guerras, miséria, doenças, barbaridades que vemos no telejornal e que até chegamos a presenciar. O mundo está abarrotado de dor, de hipocrisia, de jogo de interesses e de alguém sempre tentando te passar a perna. Isto é culpa de Deus? Não, afinal ele criou o livre-arbítrio, certo? Podemos fazer o que quisermos com a condição de respondermos pelos nossos atos. Agora, se Deus realmente nos proporcionou essa fatia de liberdade chamada de livre-arbítrio, será que ele não pôde prever onde nós chegaríamos? Será que, sendo ele onisciente, não pôde antever o comportamento destrutivo e também próprio do homem? Aí, este é o momento que alguém ergue o braço e diz: “Não tente compreender Deus”. Com isso, mais uma vez ficamos sem respostas, e as nossas dúvidas que fervilham e põem risco à fé, tomam um banho de água fria.

Agora, o que me irrita mesmo, são as pessoas que não apenas acreditam em Deus, mas que não concebem o fato de que outra não acredita. Sempre dizem: “No fundo, você acredita”, ou então “Você diz isso porque ainda não abriu o coração para Jesus”. Sinceramente, qual o sentido de alguém que não crê em algo, fingir que aceita aquilo como verdade, ou “semi-crer” para só depois passar resolutamente a considerar crível? É como dizer a alguém que não acredita em extraterrestres que eles só não existem para essa pessoa porque ela não assistiu seriados de ficção científica o suficiente, e que seria bom se ela desse mais atenção a isso, fosse a convenções, lesse histórias em quadrinhos, pois aí sim eles passariam a existir, eles entrariam no coração. Nós não podemos nos abrir para uma coisa que pensamos não existir, a menos que se prove o contrário, e eu não sou inflexível. Estou apto para conhecer, aprender e acreditar. Se eu vir Deus voando por aí eu acreditarei. Isto pode acontecer amanhã, ou daqui a um ano, ou dez... Mas eu vivo melhor com base nas coisas que acredito serem verdadeiras, porque eu prefiro controlar minhas ilusões – que são extremamente necessárias – ao invés de ser controlado por uma delas.

É incrível, como em pleno século XXI, muita gente que diz “Você não abriu o coração para Jesus” não abriu a cabeça para o mundo, para o turbilhão constante de informações e para as várias maneiras de se enxergar o mundo, a vida, o belo, o divino. Um dos maiores bordões que pessoas desse tipo dizem é: “Nossa, deve ser muito triste uma vida assim, sem Deus”, “A alegria verdadeira e plena só é possível por meio de Deus”. Ok, ok. Isto é o estágio da cegueira. Eu não quero ser desrespeitoso, mas muitas das religiões e de seus fiéis que encontro no meu dia-a-dia se assemelham aos times de futebol e suas torcidas. Em um grau mais avantajado, as duas situações não deixam de se operar pelo fanatismo, mas a ligação maior que eu vejo é quando eu leio nos olhos das pessoas: “Venha para o meu time”. Parece que a quantidade definitivamente suprimiu a qualidade. Religião hoje tem de ser pop, fashion, tem de estar na TV, no Twitter, nos points, substituindo a baladinha. Tem de ter o axé de Cristo, o “poparacompó”, tem de estar em todos os guetos, tribos, catequizando no cybers os índios da internet. As instituições religiosas para não perderam espaço, atuam das mais variadas maneiras, pregam nos mais variados formatos. Seria bom se isso tivesse alguma utilidade fora arrebanhar ovelhinhas.

Mais uma vez quero deixar claro que, apesar de eu ser desconectado de qualquer tipo de religião ou fé em um ser superior, este texto não é dirigido à religião e à crença em sua totalidade, mas somente à parte – que não é pequena – nociva e capaz de impedir a evolução humana.

Enxergo em muitos que se dizem totalmente devotos a Deus um apego muito mais egoísta do que altruísta. Deus aparece como elemento X, como carta coringa, nas horas de necessidade. Isto explica o termo “ser tocado por Deus”. Curiosamente, as pessoas são tocadas quando nada mais funciona, quando crer na invisibilidade de um ser é a solução mais cabível. Aí então elas dizem “abri meu coração para Deus”, quando já não há mais alternativa fora desse campo de criação. Como eu costumo dizer, Deus existe mais como um remédio individual do que como uma solução coletiva.

Outro aspecto importante relativo a esse assunto é a forma de como pessoas teístas costumam me abordar e tentar impor a existência de um Deus. Sinceramente, eu evito falar sobre esse assunto, pois além de ser algo controverso, não me faz a mínima diferença. Eu não levanto essa bandeira e digo: sejam ateus! Não. Eu simplesmente deixo isso debaixo do tapete, porque eu não quero provar nada a ninguém nem necessito que os outros pensem como eu penso, mas essas opiniões, essa forma de contestar e procurar me aproximar da verdade, faz parte de mim.

As frases que partem de pessoas já meio ceguetas tem todas um mesmo tom. É o tom da opressão, do medo, da subordinação completa. Quando me perguntam sobre a existência de um Deus, simplesmente respondo que não acredito, me atenho a isso, enquanto os que ouvem querem mais. Dizem: “É como negar o pai que sempre te amou”, “Isso é negar a salvação”, “Para garantir uma vaga no reino dos céus você tem de ser rápido”, e blábláblá... Uma baboseira sem tamanho. Eu pergunto, por que essa necessidade de impor a outro o seu modo de vida? Por que estender-se tanto ao invés de simplesmente comedir-se dizendo que “Sim, acredito. Você não, mas tudo bem” Será que essas pessoas realmente estão preocupadas com você, a fim de que você encontre a tão sonhada felicidade e abrace a salvação eterna? Penso que não. Boa parte das religiões tem base no recrutamento de indivíduos. Levar mais um para o seu time é primeiro garantir a sua vaga no céu, é praticar o que é tido como certo, mas precisou ser imposto durante a vida inteira. Todos nós nascemos ateus, todos nós nascemos laicos. Nenhum bebê vem ao mundo com fixação por crucifixos em vez de brinquedos coloridos ou água benta em vez de um suco docinho. Nenhuma criança é tocada por Deus sem que haja estímulo dos pais ou das pessoas com as quais ela convive. Infelizmente esse processo surge quase sempre de um capricho daqueles que desejam ver seus filhos já iniciados em uma religião, já bentos e protegidos, sem que para isso haja o mínimo poder de discernimento dos principais interessados, vide a ação do batismo. Não seria muito mais interessante se, as pessoas de consciência e personalidade já formadas pudessem escolher serem batizadas ou não?

Se crer em Deus, para mim, parece um negócio não muito viável, ter uma religião parece um mau negócio. Não é necessário se aprofundar muito para reconhecer um caráter segregador ao invés de agregador e doutrinas que funcionam muito mais como porta-vozes de interesses individuais do que da população. O maior perigo vem daí, das ideias de um ser humano falho infiltradas nos mandamentos incontestáveis de um deus. O oportunismo se faz tão presente que não é raro vermos por aí pessoas pagando uma carga tão pesada de contribuição para as casas de Deus que nem elas mesmas tem um teto pra morar. Sendo ponderado, eu acredito que a casa de Deus não precisa de milhares de poltronas acolchoadas, tevês de plasma, piso de granito e luzes de neon luxuosas.

Definitivamente, não crer em um deus é muito mais difícil do que crer. É nadar contra a corrente e fazer parte da minoria, da margem. Mas também é libertador, porque é saber que há uma opção; que não necessitamos seguir os outros simplesmente porque eles têm uma forma de agir já estabelecida e aceita pela maioria. Então, não acreditar em Deus é também ter mais responsabilidade e saber que nem sempre os seus erros serão perdoados; é agir não guiado pelo o que é pecado e o que não é, mas sim de acordo com princípios morais, buscando a justiça e as virtudes próprias do ser humano; é distinguir o certo do errado sem algum tipo de temor tirânico.

Eu venho de uma família católica, de alguns membros mais fervorosos e outros menos. Quando se é criança, é difícil contestar a validade de algo que ainda não se conhece bem. Aliás, essa ideia nem se passa pela cabeça, porque todos que conhecemos são assim e ponto final. Todos que conhecemos vão à igreja e se benzem, mas eu nunca tive dentro de mim nenhuma força extraordinária em relação à espiritualidade nem contato com Deus. Eu nunca pensei em Deus como um ser que vive independentemente da nossa vontade. O Deus era simplesmente o do imaginário infantil, dos especiais da TV, dos filmes, das histórias em quadrinhos e livretos ilustrados.

Imagino que um mundo mais evoluído e agradável de se viver seria pós-teísta, onde acreditar ou não em Deus já não fizesse tanta diferença e onde a maioria dos conflitos surgidos de uma fé cega fossem suprimidos.

Não é coerente nós buscarmos o sentido desta vida fora dela mesma. Eu acredito no amor e na ainda existente bondade humana, por isso tenho esperanças de que possamos plantar o melhor para nós mesmos e construirmos nossa história de forma mais liberta.

3 comentários:

Caio disse...

Não costumo comentar aqui, mas esse post merece um parabéns! Lembrei-me do livro "Deus, um delírio". Recomendo a leitura.

Igres Leandro disse...

Caio, obrigado. Ainda não li, mas lerei esse livro. Já assisti uma entrevista com o autor, e ele, sem dúvida, é muito bom.

André disse...

"Quem duvida da vida tem culpa, quem evita a dúvida também tem." O maior erro que podemos cometer, ou um dos tantos, é aceitar aquilo que nos foi jogado, sem ao menos levandar o dedinho da dúvida. Não há nada mais engraçado que ouvir pessoas que conseguem ver a humanidade guiada por um ente, mas não conseguem enxergar quem realmente estar por trás dos nossos atos, manipulando os cordoeszinhos do nosso destino. O controle é tão bem feito que tudo isso passa despercebido. Se bem que é menos doloroso, e até confortável, saber que nossos problemas, quando passam a se caracterizar como um, podem ser resolvidos com uma simples prece. O filósofo e físico Zenão de Eleia enunciava, baseado em leis demonstráveis e fidedignas: "Se existe um Deus, ele não está olhando para nós." Se isso fosse possível, haveríamos de destruir anos de pesquisa e constatações empíricas de que o traçado espaço-tempo está em constante expansão. Várias opiniões, cada uma mais fervorosa que a outra, surge em um debate de tal assunto. Deus existe? Ele está olhando para nós? Ele é nosso produto, ou vice-versa? Dolorosas interrogações que, apesar de ter minhas respostas - buscando sempre poli-las e aprimorá-las - prefiro não expor em certos grupos, não por medo de repressão, mas por pena de acordar àqueles que vivem submersos em ideologias limpinhas e, aparentemente, intocáveis.