quinta-feira, 1 de julho de 2010

DOSSIÊ DO MAU GOSTO


Ah, o mau gosto! Mau gosto que nunca esteve tão em alta como nos dias de hoje, em que qualquer um, por mais rude e grosseiro que seja, pode expressar sua opinião e ter a audiência de alguns bobos ociosos.

É certo que coisas impostas nunca são boas. É certo que definir, esmiuçar, rotular e querer enfiar goela abaixo o caminho do que é considerado bom gosto ou, ao contrário, do que é tido como mau gosto, não é nada saudável.

O que me irrita não são as pessoas terem suas próprias opiniões, serem diferentes de mim ou discordarem do que eu penso. O que me irrita, de verdade, é essa predileção pelo conjunto unanimemente ruim. Todos nós temos defeitos e coisas pelas quais podemos nos envergonhar ou sentir orgulho, dependendo do ponto de vista. O que me irrita é o conjunto unanimemente ruim... unanimemente ruim.

Isso é chavão, é lugar-comum, mas a preguiça de pensar, a relutância em se aprofundar em algo que verdadeiramente valha a pena, são os motivos pelos quais, pessoas adoradoras do mau gosto tornam-se tão desinteressantes.

Nem sempre o que categoriza-se como entretenimento vai nos fazer sorrir ou felizes por algum momento. Nem sempre ler um livro, assistir um filme ou escutar uma música vai fazer nosso tempo correr de forma prazerosa. Nem sempre o que parece ter alguma identificação conosco nos trará respostas. Nem sempre é positivo tentar achar a nossa verdade ou nossas particularidades em uma obra artística. Às vezes, ou até na maioria das oportunidades, o melhor é surpreender-se, é conhecer o novo e ter a oportunidade de abraçar um outro ponto de vista; alojar mais um inquilino sem despejar o antigo. Coexistir. Descobrir é viver e é também um exercício tão fundamental quanto respirar.

Não adianta bancar o de politicamente correto o tempo inteiro e achar que seu dever na vida é agradar a todos. Não adianta enaltecer o ser humano a ponto de encobrir seus defeitos e considerá-lo um poço de complexidade sem fim. Não adianta achar que todo mundo merece ser conhecido melhor e que, para isso, você deve despender seu precioso tempo e sua capacidade analítica! Não! Definitivamente, não! Grande parte das pessoas, senão todas, a quem falta o mínimo de sensibilidade e senso crítico, são previsíveis, seguem uma linha comum que dói enxergar.

Foi pensando assim que decidi escrever o dossiê do mau gosto, combinando os traços e comportamentos que mais fazem alguém refutar o mínimo de conhecimento útil e reflexão sobre a vida e sobre si mesmo.

Não quero classificar, rotular e limitar ninguém, mas também não posso fugir disso. Talvez ao final deste texto eu acabe parecendo preconceituoso ou prepotente, mas as pessoas das quais eu falo são exatamente isso também quando consideram a sua verdade absoluta e têm todo o resto como perda de tempo. A diversidade, tão celebrada por muitos, ao meu ver, não passa de hipocrisia de uma massa alienada, nada fiel às suas convicções e personalidade, que sempre adota como melhor o que foi feito na semana passada.

Cinema

Cinema para os zumbis devoradores de mau gosto, nunca foi e nem nunca será a sétima arte. Cinema continuará sendo entendido como o espaço físico reservado à exibição de filmes. Nada mais do que isso. Ouso dizer as produções, ou pelo menos a linha de produção que vira top pra gente assim. Até há algum tempo, o filme da vida das menininhas era “Diário de Uma Paixão”; dos menininhos era “Velozes e Furiosos”. Hoje em dia, certamente, o que anda mais cogitado entre os acéfalos é a franquia “Crepúsculo”. Nem sei se continuará assim até eu terminar este texto.

É difícil falar sobre isso, porque existem as fases e os tipos de adoradores da escória maquiada.

Por exemplo, o maricas que pula dos musicais da Disney na fase pupa para, na fase borboleta, qualquer saga teen, que pareça sombria, desafiadora e inteligente, mas no final de contas é só um conto de fadas açucarado.

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O tiozinho, uma das raças mais fáceis de se identificar e mais estúpidas também – refiro-me àquele tipo repugnante, porque existem também tiozinhos engraçados e camaradas – consome basicamente dois gêneros de filme: o pornô, porque ele é comedor e não resiste a uma sacanagem, e os filmes de ação, muita bala e capotamento de carros, porque ele, mais uma vez é fodão, comedor e não está de brincadeira.

Para as menininhas cute-cute, não-me-toque, que defendem o amor da pior maneira possível, não existe outra coisa que não uma bela comédia romântica, daquelas costuradas por piadinhas chinfrins, drama xexelento no meio da trama e um final tão previsível que faz de qualquer um clarividente. Demorei mais aprendi que, essas menininhas-flor, que não podem escutar e nem falar palavrão, são as primeiras que se metem no gang bang da esquina quando se vira as costas.

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É blockbuster? Tá no cinema? Tem pôster bonitinho? Anda muito comentado por aí? Pra gente assim, deve ser bom, porque a opinião da massa preenche o vazio do indivíduo incapaz de pensar por si mesmo, e é assim que se sobrevive.

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Em último grau, há ainda aqueles que não dispensam uma dublagem faceira. Mas é óbvio. Se não leem nem os livros, o que dirá dos filmes, não é mesmo?

É esse mesmo tipo de gente que despreza completamente as películas antigas e acha tarefa impraticável assistir qualquer produção monocromática.

Filme brasileiro? No máximo um “Tropa de Elite”, talvez porque reúna os elementos ação, a não necessidade de legendas e a síndrome Datena de ser.

Música

Música, a linguagem universal capaz de unir povos e emocionar pessoas mesmo sem que se saiba o significado de sua letra. Música que também pode soar como as clarinetas do inferno em dia de festa. Entregue às mãos erradas, música é a imposição do mau gosto. Seja sincero, você já observou um carro, com aqueles estridentes aparelhos de som ligados a todo o volume tocar uma música boa? Se sim, diria que você é alguém sortudo.

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O gênero musical predominante para cada um de nós está profundamente arraigado ao modo que vivemos, que somos, à nossa personalidade. Talvez por isso que, detenho-me tanto às escolhas musicais de cada um, mas também não dá pra colocar uma venda, se passar por asno e ser totalmente radical e inflexível, achando que a vida é um grande last.fm, onde o grau de compatibilidade musical de cada um é sempre comparado e aí sim se tem ou não um motivo para se fazer um novo amigo. Acho que o que deve haver é uma linha de coerência, não de previsibilidade, mas de coerência ao que se escuta. Diria até de fidelidade. Música boa é música boa, e não importa se é rock, jazz, blues, samba, bossa nova, eletrônica, forró. Posso não gostar de determinado gênero musical, de determinada banda ou interprete, mas quando sei que a música é bem produzida, tem conteúdo e originalidade, eu reconheço isso. Não gosto de forró, mas é indiscutível que Luiz Gonzaga foi um grande interprete e que sua obra é um rico fruto da cultura popular. Não gosto de samba, mas a sua qualidade como gênero musical, representante do povo brasileiro, não pode ser negada. O que não pode ser admitido é que o ato de inovar seja confundido com o de desfigurar, já que é isso que acontece muitas vezes, quando, usando o exemplo daqui do Ceará, uma dessas horríveis bandas tem a cara de pau de afirmar que a excrecência produzida por elas é forró. Ora, vejamos bem. Quando se fala em forró, qual o primeiro instrumento que vem à sua cabeça? Um acordeom, ou sanfona, como chamam por aqui. Ao contrário disso, o “forró” que faz sucesso com o povo é aquele produzido por uma banda com, no mínimo, dez integrantes, duas guitarras, cabelo grande alisado tanto para as mulheres quanto para os homens, calça de couro, roupa preta e o abocanhamento de sucessos estrangeiros que tocavam nos anos 80 nas rodoviárias de todo o país e ninguém se lembra mais, quando não são versões, com tradução horrível, das músicas internacionais da trilha sonora das novelas da globo, ou canções de duplo sentido tão erotizadas que eu tenho a sensação de quase adquirir uma DST quando o vizinho liga o rádio e põe pra tocar.

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Aí eu me pergunto, como isso pode ser considerado forró? É a mesma coisa que Restart, Cine ou NX Zero serem consideradas bandas de rock, e olha que essas ainda usam guitarras, pelo menos no quesito cenografia.

Pessoas, representantes genuínas do mau gosto, escutam tanta coisa ruim por dois fatores: primeiro, pelo caminho anteriormente trilhado pelo grupo do qual ela faz parte; segundo, pela preguiça e acomodação de apreciar algo que não chegue aos seus ouvidos prontamente acabado e suscite algum tipo de reflexão posterior. Tudo que é mastigado, vomitado ou previamente digerido, é também prontamente aceito, mas no final das contas, o resultado é uma grande indigestão.

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Por que essas bandas que se auto-intitulam “hardcore melódico” fazem tanto sucesso no Brasil? Resposta: pela repetitividade e superficialidade dos assuntos abordados voltados para os teenagers em formação que, um dia, certamente irão sentir vergonha do que outrora seus ouvidos abrigaram. O rock clássico reúne netos, pais e filhos. Agora imagine estes citados devidamente caracterizados no estilo emo, curtindo um show. Sofrível, pra não dizer surreal.

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Um gênero que há algum tempo era totalmente marginalizado e, depois de ser elitizado e virar lazer alternativo pra madame mantem sempre o seu espaço na mídia, é o funk. Alguém levantará o braço e dirá que é a voz da comunidade, o grito reprimido da favela, forma de expressão. E daí? Uma coisa é analisar algo como o sociólogo ou o antropólogo fazem, dando seu parecer holístico. Outra é ser obrigado a gostar disso. Perdoem-me, mas qual a relevância de uma mulher que usa codinome de fruta e rebola como se praticasse um ato sexual? Não sou conservador. Pelo contrário. Só penso que, se o que se quer é perversão, por que não ir direto ao ponto? A pornografia, nos seus mais intensos graus está aí pra quem quiser, a um clique, mas, até pra falar sobre sacanagem da mais suja, há de haver inteligência caso o destino não seja o abismo do mau gosto.

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Inevitavelmente, crescemos rodeados por garotas usando micro-shorts e rebolando ao som das monossilábicas letras de músicas made in Bahia. É, parece que Carla Perez fez mesmo “iscola”. E não importa onde você more ou de que classe social você seja, sempre há um vizinho demente, uma lata velha ou um canal de TV tocando música indesejada, mostrando que os quatro cantos do Brasil e toda sua continentalidade produzem disparates pra todos os gostos.

Muita gente faz questão de disfarçar o próprio mau gosto. Alguns dizem: “Ah, não vou ficar em casa feito um lunático. Não importa a música. Hoje vou sair. Estarei lá pelas pessoas”. Só esquecem que os frequentadores desses ambientes são o exato reflexo da música que lá se escuta. Quem não concebe a música do ambiente como algo pelo menos parcialmente aceitável, não se submete a isso. O que se espera de um baile funk são potrancas, cachorras, frutas e calças Gang. O que se espera de um show de black metal são roupas pretas, cabelos compridos e pseudo adoradores do coisa-ruim que morrem de medo de ver o sol do Teletubbies. O que se espera de uma festa de forró são beberrões, adoradores de espetinhos de gato, que falam “lito”, referindo-se a litro – de cachaça -, porque falar corretamente é chato e patético. Esses estereótipos são tão maldosos, mas, não discuta comigo! Eu moro no Ceará, eu sei.

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Depois de tudo isso exposto, o pior mesmo é que, há ainda aqueles que, reconhecendo o ouvido de pinico e demais excrecências que têm, bancam o de ecléticos, capazes de apartar o que é bom e o que é ruim na hora em que bem entenderem. Pra mim é clássico quando dizem: “Ah, só escuto isso quando saio de casa, com os amigos, num momento de descontração”, ou, “Eu gosto mesmo é de rock. Sou super fã do Legião Urbana. Acho Renato Russo um gênio” ou ainda, “MPB, MPB que é bom. Gosto de Tom e Chico”, isso porque rola uma intimidade, né?

No final das contas, é deprimente, porque não existe nem mesmo a dignidade de defender o que se gosta com fundamentos cabíveis. É aquele ponto da falta de fidelidade por parte do público-alvo e da falta de consistência por parte dos que produzem esse tipo inibidor de apetite musical.

Literatura

O objeto livro está diretamente ligado à imagem de alguém estudioso, introspectivo, refinado, inteligente. É assim, porque, vamos admitir, a boa leitura transforma o ser humano, reforça o senso crítico, apresenta novas visões e reflexões, oferece base para suas fundamentações. Enfim, acredito que, sem a leitura, é muito difícil, talvez impossível, ser alguém melhor. E aí a gente se pergunta se pessoas donas de mau gosto em praticamente tudo realmente leem e consomem livros. A resposta é: muitas delas.

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Muito parecida com a indústria do cinema em certos aspectos, talvez por inúmeros filmes serem adaptações de livros, o mercado editorial também tem os seus fenômenos de venda. Nem todo best seller é ruim, mas também não podemos elevar o conteúdo do livro por que ele é best seller. Isto não pode transformar-se num selo de qualidade, porque não é. Na verdade, o que muitas vezes ocorre é até mesmo o inverso. Livros extremamente vendidos geralmente tem uma história tão pífia e um modo tão superficial de abordar certos temas, proporcionando assim que a grande massa seja atingida facilmente, sem obstáculos. São os escritos destinados à pequena massa... encefálica. Só isso não é garantia de sucesso, não, mas, tão perigoso como os conservantes do McDonald's, são as fórmulas usadas para vender e agradar o máximo possível de gente.

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Fórmulas essas que repetem-se incansavelmente, obviamente porque dão certo. Já cansei de ver livros derivados de programas televisivos; escritos por padres, de autoajuda, baterem recordes de vendas. É esse tipo de coisa que abre precedente para que Geyse Arruda cogite escrever uma biografia. É, Bruna Surfistinha também fez “iscola”.

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Como se ter o livro por si só depositado numa prateleira ou numa estante fosse grande coisa. As mães se orgulham: “Meu filho de 15 anos adora ler”, pena que, na maioria dos casos, todos os livros que se encontram no quarto do indivíduo sejam do bruxinho Harry Potter ou dos vampiros sugadores de suco de framboesa da saga Crepúsculo.

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Enquanto milhares de bons escritores disputam um lugar ao sol escrevendo com suas almas, de forma espontânea histórias sensíveis, inovadoras e livres para ultrapassar limites, quem sustenta o mercado editoral são os livros camuflados, vestidos com uma bela capa, hypados pela grande mídia, mas tão vazios de conteúdo que dão a sensação de serem mais leves do que os outros.

Dou atenção especial aos livros de auto-ajuda que constituem um gênero e esbarram em todos os clichês possíveis. A fórmula de tanto sucesso parte dos próprios leitores que, desesperados, iludem-se achando que um livro é capaz de aplicar grandes transformações em sua vida. É mais ou menos o que acontece com o feio, desempregado e pobre que não resiste às placas de neon da Igreja Universal. “Só preciso de uma orientação. Depois é comigo, eu posso me autoajudar.” Pronto, vão-se 30,00 reais do bolso com papel mais útil se viesse ao mundo como higiênico.

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Livros de autoajuda repetem o que todo mundo já anda cansado de saber: é melhor ser alegre que ser triste; tire férias e esqueça o trabalho; procure ser menos estressado; confie em si mesmo; faça o que você gosta; seja otimista. É tudo muito genérico e o problema mesmo é colocar isso em prática. Quem na vida não quer ser feliz? Só que a felicidade é um conjunto de fatores tão complexos e tão subjetivos que não dá pra ser compreendida de maneira tão resumida. Quem não quer tirar férias eternas no Havaí e bronzear-se numa rede enquanto duas dançarinas de hula-hula te refrescam abanando pra lá e pra cá? O problema é que isso é um tanto quanto impraticável, para trabalhadores assalariados que sustentam suas famílias e passam quatro horas do seu dia num trânsito caótico. Então, acho que os principais males de livros de autoajuda são a falta de autocrítica que eles propiciam a quem os lê e essa total falta de nexo com a realidade. Minha teoria é que, esse tipo de livro, só ajuda a quem os escreve.

Para mim, esses são alguns dos principais pontos caracterizadores do mau gosto a nível geral. Poderia continuar falando sobre gírias, cantadas, sapatos de camurça, correntes maloqueiras no pescoço e tantas outras manifestações de desconcerto pessoal, mas acho que já é o suficiente.

Lembrem-se, nada é absoluto. Tudo é relativo e pode ser discutido, contanto que haja fundamentos para tal (ei, isso é absoluto?).

5 comentários:

Cleomilton Filho disse...

Igres, muito bom mesmo! Te peço permissão pra postar teu texto no meu blog. Valeu.

Abração.

Jayane Ribeiro disse...

Um post inspirado. Dá pra sentir a raiva nele... rs.

É basicamente o que eu venho dizendo desde muito tempo praqueles amigos que enchem meu saco e me chamam chata por eu não ter lido a saga crepúsculo ou não saber nem o nome da novela das 8... A vida é preciosa DEMAIS pra não ser uma aprofundada e DE FATO vivida.

Igres Leandro disse...

Cleomilton, claro! Fique à vontade.

Jayane, obrigado! Sentiu a raiva, né? Haha.

É. Nadar contra a corrente não é fácil. Sempre vai aparecer um tolo pra pegar no seu pé, mas, desistir é para os fracos, haha.

Wilsoleaks Alves disse...

Igres que é isso cara? Nunca tinha lido uma crítica tão bem feita ao nosso cotidiano artístico.
Quando você começou a falar do tiozinho, pensei: fudeu! Vai sobrar pra mim...
Mas, ufa! Escapei dessa porque não gosto de pornô e nos filmes de ação invariavelmente durmo nas indefectíveis perseguições de carros.
Porém confesso. Adoro a trilogia “A Identidade Bourne”. O Matt Damon me redime perante o Império.
Tenho uma filha de 14 anos que vai adorar esta crítica, não sei se ela poderá compreendê-lo por completo, contudo, mesmo um pouquinho do que você diz, se captado, poderá lhe servir como bálsamo nas feridas abertas pela mediocridade.

Igres Leandro disse...

Wilsoleaks, muito obrigado pelo elogio! Também gosto de "A Identidade Bourne". É uma ação bem pensada, convenhamos.

Fico feliz que você repasse o texto pra sua filha, quem sabe ela não se torna frequentadora do blog?

Abraço!