quinta-feira, 11 de junho de 2009

Telefonema


Alô? Alô?... Ah, ainda não disquei. Este telefone não para de chiar. Desde que foi instalado ele vive com este barulho estranho. Chiiiiiiiiiiizzzz... É tudo volátil. Tenho a impressão de que alguém do outro lado já me chamou. Não sei se foi uma interferência terráquea ou do além. Não sei. Escutei metade do meu nome no chiiiiiiiiiiizzzz. Desliguei. Desliguei antes que pudesse escutar de novo.

Agora são dez da noite de uma sexta-feira, 16 de agosto de um ano que eu sempre me esqueço ao tentar lembrar. Comi um pizza inteira, sozinho. Tudo bem que não foi uma grande, foi uma média, mas, antes eu ficava satisfeito com uma pequena. Foram seis opulentas fatias para o meu estômago. Acho que fome tem a ver com solidão. Solidão provoca fome. Quando nossa barriga ronca, é mais um grito desesperado por companhia. Seja qual comida for, até estragada, mas é a súplica por um preenchimento. E, quando a gente se sente só, a comida já deglutida parece que não faz efeito. Parece que o saco fica vazio de novo. Não para em pé.

Hoje aproveitei o tempo livre para fazer tudo o que tinha de fazer. E o que não tinha também. Inventei coisas. Pintei uma parede, cortei as unhas de uma mão e roí as da outra – porque não consigo segurar direito a tesoura com a mão esquerda -, lavei os cabelos com shampoo e condicionador, li dois jornais antigos, assisti TV. Eu não aguento mais assistir TV. Liguei para o SAC da operadora de TV por assinatura. Quis consultar alguém, ouvir uma voz e esquecer esse maldito grilo que está enfurnado em algum lugar.

Alô?... Ah, está chamando. Mais uma vez. O telefone pulsa. Ao longe, surge uma voz.

Ai! Ela atendeu. Ela que eu estava esperando, ela! E ela atende sonolenta. Sinto que já ia embora, sinto que já encerrava o turno, sinto que olhava os biombos vazios, os computadores desligados, os copinhos descartáveis de plástico fora da lixeira, sujos de batom.

Ela inicia com formalidades, coisa que não precisava. Devia iniciar com intimidades, isso sim. Era o que eu queria. Intimidades a essa hora da noite. Quando se tem milhares de fios e quilômetros nos separando, se quer intimidade, não formalidade. Ela diz “Serviço de atendimento ao consumidor. Boa noite! Meu nome é Marina, em que posso lhe ser útil?”.

Marina, se você pudesse imaginar. Se você pudesse mesmo prever tudo em que me seria útil. Você nem sabe, Marina. E quando eu tenho seu nome, seu nome aqui comigo – até escrevi num papelzinho pra guardar -, me sinto mais íntimo. Nada de formalidades! Esqueça a empresa. Esqueça o roteiro que eles te entregam junto com o pão e o café. Vocês não são robôs, nós não somos zumbis. Nós, clientes, somos seres humanos. Também nos apaixonamos por funcionários de call centers. Principalmente se seu nome for Marina, sua voz for doce, crescida e com sono também.

Eu deixo tudo mudo, tudo vagando pelo ar, pelos cabos de fibra óptica, ponho tudo em risco, enquanto fico calado por alguns instantes, pensando essas loucuras todas, enquanto Marina precisa ir embora, fechar o zíper da bolsa, pegar o próximo ônibus.

“Alô? Senhor? Senhor?...”, Marina insiste. Comprometida. Ela só não quer perder o cliente na linha. Não quer que ele vá dormir com a única programação da TV sendo os chuviscos. Para os demais, isso seria o suficiente, seria surpreendente até. Mas Marina não se importa se o solitário homem que ela vai perder é o futuro pai de seus filhos, o cara que vai resgatá-la de todo e qualquer call center da vida, dos ônibus apinhados de gente. Marina, comigo você só usará uniforme para realizar fantasias sexuais.

Marina, eu não aguento mais assistir TV. Entendo seu trabalho, então, antes que você me interrompa oferecendo um pacote com mil e um canais, canais sobre viagens, reality shows, filmes, seriados, programas de auditório, eu não quero! Não quero, está bem?! Não quero canais com o melhor do esporte. É a coisa que eu menos pratico na vida. Não quero canais sobre futebol, eu não gosto de futebol. Não sou como esses caras por aí que gostam de futebol. Também não estou a fim do pacote de canais adultos. Não quero mais desperdiçar meu tesão com atrizes tailandesas traficadas para o porão de alguma casa dos estados unidos.

Marina foi tocada, pela minha bênção, pela minha conversão. Bastou um segundo, um segundo de hesitação, e lá estava ela, com o telefone em uma mão, com a outra entre os cabelos. Com aquelas unhas vermelhas, lá estava ela. E se eu pudesse lá estar também, se isso fosse possível, enxergando tudo de cima, eu veria uma milimétrica gota de suor correndo rapidamente entre seus seios, fixando-se entre os dois, criando uma ponte. Eu não pedi volumosos seios. Marina, para mim, poderia ser só Marina, somente isso e sua voz, como um fantasma. Porém, já que os fartos seios lá estavam, batizados por minhas palavras e seu suor bento, eu não reclamaria. Nunca.

Marina gaguejou. Depois de hesitar com o silêncio, depois de repensar minha voz, ela gaguejou. Acho que pensava sobre o quão horrível eu era, fazendo-a perder sua noite, ficar aterrorizada com um homem obsessivo, que acredita em amor à primeira ligação.

“O senhor pretende cancelar sua assinatura então?”, ela disse, com a voz mais doce do mundo, com a voz mais delicada, amável, afável, fofinha. Ela disse, com a voz menos compreensiva do mundo. Eu não, eu não pretendo cancelar, eu não pretendo cancelar nada, a não ser eu mesmo. Quero que as contas continuem chegando, entulhando o vão da porta, me lembrando o que eu comprei, com o que eu gastei, como me endividei, como me dei de presente, como fui recolhido para o estoque dos defeitos.

Olha, Marina! Eu não pretendo cancelar coisa nenhuma, tudo bem? Sério, eu não liguei pra cancelar nada. Por mim as coisas continuam sem cancelamento. Sabe o que eu quero cancelar? - me contradizendo - Imagina? - Dessa vez, não falei sobre cancelar eu mesmo. Dessa vez, Marina escutava. Tinha de impressionar de maneira positiva. - Quero cancelar nossa distância, Marina. Quero você aqui, comigo. Quero assistir filmes, seriados, reality shows, programas de auditório, todos com você ao meu lado. Você entende o meu lado? Entende que eu seja capaz de desejar isso?

Marina pareceu querer entender. Riu e chorou rapidamente. Eu ouvi nitidamente. Marina se esforçou para me entender, mas era em vão. Aquela maneira, aquele modo que segui, o jeito que pude tocá-la, era impraticável. Eu poderia ser qualquer um. Poderia ser horrível, por dentro e por fora. Marina nunca teria uma resposta.

Ela desligou o telefone educadamente, formalmente, sem quebrar meu coração, mas também sem ajudar a remendá-lo. Mas eu não culpo Marina. Ela fez o que pôde. Senti isso, mesmo sem que ela tenha me comunicado.

Acordei com o corpo doendo, com fome, com mais uma conta passando por debaixo da porta, com uma torneira ligada – provavelmente do vizinho. Acordei com a TV sintonizada em um desses canais de notícia. Tirei a remela dos olhos para ver Marina chorando enquanto se agarrava desesperadamente ao microfone da repórter. A reconheci pela voz. Foi aí que eu soube que era a minha Marina. Ela falava trêmula sobre o terrível crime acontecido naquela noite: seu namorado fora assassinado por um homem armado com um revólver. Ele teria reagido à tentativa de assalto e levou dois tiros na face. Uma mulher que estava ao seu lado no ponto de ônibus também foi baleada e está no hospital. Marina chegou logo depois.

Marina chorava copiosamente, e era tão triste aquele choro. As lágrimas que varavam o rosto eram tão diferentes da gota de suor entre os seios. Mas Marina não era diferente do que eu imaginava que fosse, mesmo com a maquiagem borrada. Eu salvei meu grande amor.


sábado, 6 de junho de 2009

Os piores programas da atual TV aberta brasileira


A televisão. Muita gente diz que prefere cortar o mal pela raiz e deixar de assistir, quando o caso é a produção nacional de TV. Em meio a uma falta tremenda de originalidade e também uma acomodação do grande público, que engole tudo goela abaixo, a maior fatia desse bolo acaba não sendo digerível.

Partir para a TV paga, em sua maior parte estrangeira, ainda é uma vantagem, mas é importante lembrar que ela também carrega seu lado medíocre, com atrações tão ruins ou até mesmo piores que as nacionais. O problema é que, por melhor que seja o programa sintonizado na sua TV, ainda se sente falta de uma atração nacional de boa qualidade, que fale nossa língua, retrate nossa cultura, nossas particularidades e registre o que acontece de arte, de loucura, de novo, neste Brasil imenso de pontes abaladas.

Pensando bem, e sempre tem alguém pra dizer isso, a TV com o tempo foi perdendo sua utilidade, foi ficando para trás, e uma nova geração formou-se frente à outra luz: o computador, a internet. Adoro! E vivo vidrado em um, checando os e-mails, as inúteis notícias, os sons novos. Apesar disso, um meio de mídia não consegue substituir completamente outro. Pelo menos, não para mim. Há um complemento, e o que é internet vira TV, o que é TV vira internet. Da mesma forma com a literatura, com o rádio, com o cinema. Cada área tem sua linguagem própria que se adapta aos tempos modernos mas mantém a essência.

Não adianta apenas ler e esquecer a TV, navegar em blogs e nunca mais folhear livros... Existem momentos nos quais eu apenas quero relaxar, ser tão passivo a ponto de hibernar, em outros quero ferver a cabeça, estar aberto para muitas informações ao mesmo tempo. E, em cada um desses momentos, uma linguagem pode me parecer mais propícia.

Buscar, filtrar, reunir informações, desvendar a diversidade, conhecer o bom, o ruim, e estabelecer um referencial. Estamos sujeitos a tudo isso na vida, mas nem sempre precisamos passar por situações adversas para aprender algo. Temos nossa imaginação. Podemos materializar situações. Na TV, no caso, é até gostoso se torturar um pouquinho, só pra criticar depois, só para poder absorver esse tipo de informação sob um novo ponto de vista. É a montanha russa mais volátil do mundo, do melhor ao pior, que nos traz satisfação. E experiência para distinguir o pior melhor do pior pior. Do ruim crônico.

Começo então uma lista descompromissada (até mesmo porque na grade da SKY não tem SBT, que então escapa de ser listado).

Sem ranking algum, começo pela Turma do Didi, exibido pela Rede Glóbulo de Televisão. Sinceramente, fico pensando que tipo de gente consegue dar uma risada com esse programa. Vamos dar um desconto: mostrar os dentes, pelo menos. Não, eu não tenho na minha cabeça a imagem de ninguém rindo ao assistir a Turma do Didi. E qual é a função de um humorístico?
Renato Aragão já teve seus tempos áureos ao lado dos Trapalhões que, indiscutivelmente, é um clássico do humor brasileiro. O programa que ele mantém hoje, cheio de piadas repetidas, subcelebridades e uma aparência fake horrorosa, é só mais um exemplo de quem vive do passado.

Photobucket

Dona Márcia! Zapeando, uma vez ou outra, eu vejo a Dona Márcia. Ela e seu velhote teste do polígrafo. Ela e a mulher que tem um grande segredo pra revelar até o final da tarde. Ela e uma porção de atores que, podiam ser orientados pela produção para contar estórias mais originais, já que é tudo ficção mesmo.
Eu acho Márcia estranhíssima. Fico olhando pra cara dela e tentando decifrar algo, tentando lembrar depois na minha cabeça como é o rosto dela, mas não consigo. Acho que ela é uma E.T.

Photobucket

Luciana Gimenez, a mãe do filho do Mick Jagger, casada com o vice-presidente da Rede TV. Ela é a apresentadora do pop, mais pop, pop mesmo, Superpop. O programa é vaginal, como disse uma vez, se não me engano, Adriane Galisteu.
Não podemos acusá-lo de apatia quando o assunto é angariar audiência, de qualquer forma, usando os dois meios mais vulgares pra isso: o erotismo e uns barraquinhos pobres.

Photobucket

Os programas da Globo são definitivamente polidos. Mostram quase sempre gente bonita, cheirosa (sim, dá pra sentir o cheiro pela TV), educada. Vídeo Show é um dos que mais tem história na casa. Agora, numa nova fase composta por apresentadores donos de tanta opinião própria quanto uma lagosta, o programa disseca a já chatíssima programação genérica do canal e explica o conteúdo das novelas pra quem não tem capacidade de entender durante o horário das 6, 7 e 8.

Photobucket

Os Mutantes ou Caminhos do Coração? Sei lá, só sei que os dois nomes são ridículos, principalmente para uma novela, uma novela que tem temporadas de tanto sucesso que faz por aí. Uma cópia descarada dos X-mens com adaptação brasileira. Efeitos especiais caseiros e dentaduras falsas que fazem os atores falar babando. É um grande pastelão.

Photobucket

Domingão do Faustão, o preferido das pizzarias e churrascarias de quinta. Enquanto você toma sua Coca-Cola estupidamente gelada e saboreia sua pizza à moda da casa, atura uma sucessão de ô-locos. O grau de chatice é tão alto que dá até pra dividir, medir e saber muito sobre aquelas pessoas que gostam ou não do programa do Fausto Silva. Quem, em sã consciência se mantem em frente à TV assistindo vídeo cassetadas? Não fossem as estrelas globais que, para cumprir contrato, aparecem por lá, seria mais fracasso do que é. Pelo menos aprendemos que um elogio do Faustão é pior do que dez insultos.

Photobucket

A Tarde é Sua. Como eu já sugeri uma vez, poderia trocar o nome para A Morte é Sua e agarrar mais audiência. Eu fico vendo o olhinho da Sônia Abrão pela tela, aquele olhinho sereno, apertadinho, só esperando uma tragédia acontecer pra garantir o programa do dia. Mas não importa de qual área, como, por que, morreu alguém, adoeceu alguém, entrou alguém em estado catatônico, a equipe do A Tarde é Sua está lá, fazendo gravações intermináveis e enviando seu repórter especialista em extrair lágrimas de quem já parece um deserto. Pra descontrair é a vez das sub celebridades darem as caras. Moranguinhos, Maracujás, Pinhas, ex-BBBs, Rafael Pilha, Gretchen e a turma toda.

Photobucket

Mesmo com calo nos dedos de tanto zapear entre a programação, o que não falta são programas ruins, descartáveis, amadores, manipuladores, dissimulados, vulgares. Mas não é preciso se assombrar com a TV, apesar da escassez de qualidade, uma hora se encontra algo interessante, e é isso que o público precisa valorizar.

Como diria o missionário R. R. Soares, apresentador do programa Show da Fé - que só não entra nessa lista porque é um grande comercial de igreja -, "Eu vou seguindo a Jesus Cristo, nesse caminho, eu não desisto... lálálá...".


Photobucket


terça-feira, 2 de junho de 2009

Desaparecidos


Nessas horas, de desespero, de angústia, por mais pessimista que se seja, ainda se tem um foguinho de esperança nos dizendo que pode haver sobreviventes do acidente que envolve um dos aviões da companhia Air France.

Eu fico pensando quimericamente, será que esse voo foi parar na ilha de Lost? Sabe, alta turbulência, um raio atingindo o avião. Estranho...


Photobucket


Photobucket

Na ilha tem francês, já teve brasileiro e mais um pessoal de toda parte do mundo... Bom seria...


domingo, 24 de maio de 2009

Dias de febre


Vez ou outra eu me supero. Agora, quase bati meu recorde (aliás, qual é mesmo?). Sexta-feira à noite, voltando pra casa, já sabia: "vou ficar doente", eu disse. Dito e feito, desde então permaneci em casa, doente. Sexta, sábado, domingo, segunda, terça, quarta, quinta, sexta. E só então na sexta eu me senti capaz de comprar pães fora de casa, mas não fui, claro. A garganta me matou esses dias, trouxe a febre junto. O mais chato é ter de ficar escutando sua rouca voz se esforçando pra sair.

Em condições normais eu já pareço um zumbi, rastejando como dá pela casa, procurando cérebros de gelatina, verificando se esqueci parte do meu em algum lugar. Na semana que passou, além de zumbi, fui mais vampiro também. Luz do sol! Não! Não!!! Eu quase a não vi. Pelo menos assim retardo o envelhecimento. Reparei também que, no meio do tratamento à base de mel, ninguém me ofereceu alho. Ainda bem! Odeio. Mas meus dias de sopro até que não foram embalados pelos vampiros do cinema, da música, ou da literatura. Só ontem, quando eu já tinha saído do caixão, é que curti um cineminha vampiresco: Fome de Viver (The Hunger), estrelando David Bowie, Catherine Deneuve, Susan Sarandon, direito de 1983.

Photobucket

Casalzinho charmoso do filme

É um bom filme, misterioso, sexy, com um clima poético sobre o tema vampiro e vida após a morte. Segue um rumo diferente dos demais, deixando de lado a carnificina habitual, as mocinhas fugindo dos vilões em ruas desertas, as estacas de madeira e, até mesmo, as presas afiadas dos sugadores de sangue. Ontem eu não era um dos melhores espectadores, mas assisti até o final, entre uns cochilos e outros. Adoro a cena inicial ao som do Bauhaus



Mas nem só de vampiros se vive eternamente. Eterno também é John Wayne, e, entre seus filmes, selecionei um mais propício, adequado à situação. Com a febre me congelando, assisti nesses dias Geleiras do Inferno. O filme tem um tom bem inocente, mostra o companheirismo a qualquer custo, a amizade sincera. E é com base nisto que um grupo de aviadores parte para resgatar Dooley (Wayne) e seus amigos, perdidos em alguma geleira do Canadá.

Photobucket

Resgatei também uma lembrança que tinha sobre uma banda. Lembro-me de ter visto um vídeo clipe deles em algum programa de TV, me interessei, mas as informações na internet eram escassas.

Xeretanto pelo YouTube, no que, eu não me lembro, um vídeo relacionado apareceu, e o nome era familiar: Tom Bloch. Baixei o disco. Eu ainda estou amaciando o ouvido, mas sei que gosto, e já tenho músicas preferidas. Nessa Casa e O Amor. Também no mesmo disco homônimo, há uma versão de Fala, hit dos Secos & Molhados. A canção é indiscutivelmente linda, e o Tom Bloch conseguiu algo diferente com sua interpretação, um tom fantasmagórico, sinistro, mas ainda seguindo a original.

Assistam o clipe de O Amor:




Agora só me resta torcer para que a febre fique longe de mim por muito, muito tempo.


segunda-feira, 11 de maio de 2009

Abelardo


Uma, duas, três, quatro, cinco. Cinco correntes Abelardo levava no pescoço. Todas fruto da safra de quando ele era cafetão. Bons tempos aqueles, mas, assim como nas máquinas caça-níqueis, quando se está ganhando, há o momento em que se deve parar, senão, pode-se perder tudo. E foi exatamente isso que ele fez. Parar e curtir a vida. Poder relaxar com um drinque na mão sem se preocupar se uma puta adoeceu, se a Lorena quer matar a Cláudia ou se a Flávia prefere trabalhar com o Loyola. Sem mais acordar no meio da noite achando que alguém deseja matá-lo porque uma de suas garotas faz ponto em uma área que já tem dono.

Aos 40, mas com corpo de 30, Abelardo só quer saber do baile de gafieira às sextas e dos ensaios com sua banda de jazz aos domingos. O resto dos dias da semana, ele vai à caça. Vestido com cetim e usando um perfume que irrita os narizes mais sensíveis, checa sua performance em frente ao espelho antes de sair de casa. Para Abelardo, seus trejeitos são sua arma fundamental. Todos os seus movimentos são calculados e fazem parte de um jogo de sedução que começa antes mesmo de ele pôr os pés fora de casa. Tamanha dedicação é o segredo da bonança com o que mais lhe dá prazer: mulheres feias.

E quando digo feias, não são desajeitadas ou mal-tratadas, são cronicamente feias. Mulheres que parecem um arbusto ou vindas de outro planeta. Abelardo já teve muitas mulheres. Feias, bonitas, comestíveis. Ele já provou de todas. Mas foi enjoando gradativamente da maioria, da maioria de beldades que passava por sua mão. Foi aí então que, em resumo, sobrou o que inconscientemente ele mais primava.

Eram as feias, libertinas, que em sua experiência de vida sempre foram as que mais se entregavam. Sempre foram as que iam às estrelas sem necessitar de um anel cravejado de diamantes ou de um carro importado. Essas gozavam de verdade. E tal entrega, plena e singular, fez Abelardo não só amar cada uma dessas mulheres, como também respeitá-las de uma forma inteiramente nova para ele.

A sua veneração pelas feias, quase sempre mal-amadas, o inspirou a escrever sobre elas. Mesmo que de forma superficial, entre aquelas linhas rabiscadas num pequeno livro de anotações, ele tinha a recordação de cada uma. Da Anita, da Alstofa, da Raimunda, da Ofélia, da Margarete, da Zilú, uma velhinha tarada de 66 anos. Da Paulicéia. Ah! e como esquecer a Paulicéia? Aquela mulher marcada pelo tempo, misteriosa e de olhinhos tão pequenos por trás daqueles óculos fundo de garrafa. Abelardo a encontrou num dia sem sol, sentada no chão, chorando como uma louca e com os cabelos crespos desgrenhados. Ele chegou de mansinho, com todo aquele cavalheirismo e ar de quem tem todas as respostas para a vida. Foi aproximando-se, perguntando, observando e conseguiu por fim arrancar a história toda de Paulicéia. Seu marido, um canalha sem proporções, a traía há dez anos e, não contente, bêbado, ainda a espancava como quem bate em um saco de areia. Cansada de tanto sofrimento, Paulicéia lutava para conseguir divorciar-se, mas ele, sobrevivendo do trabalho da mulher, a ameaçava de morte constantemente e ainda prometeu ficar com a guarda dos três filhos do casal, alegando que ela sofria de problemas mentais.

Paulicéia poderia ter pedido a ajuda de um profissional como Abelardo, acostumado com a guerra das ruas e experiente em como dar um belo sumiço em alguém. Mas ela deixou se levar pelos sentimentos. Nada fez para encobrir sua ação equivocada. Simplesmente saiu às ruas com as mãos ensangüentadas, depois de desferir 20 golpes com a tesoura que usava para cortar tecidos, por todo o corpo do marido. Foi naquela situação que Abelardo encontrou Paulicéia lastimando-se por agora saber que não veria os filhos durante muito tempo.

Com um afago, tudo foi se acalmando. As mãos grandes e negras de Abelardo apalpavam Paulicéia e as pontas dos dedos corriam em volta da aureola de seus seios caídos. E então, ela foi convencida a ir a um motel.

Paulicéia percorria a corda bamba que delineava o campo da sanidade e o da loucura, e em todo o tempo que passou com Abelardo, ela foi um misto dos dois. Ele pouco se importava, mas, por via das dúvidas, quando escutou o relato da boa moça que matou o homem mau a sangue frio, tratou logo de tirar a arma da gaveta e pôs do seu lado, como uma garantia de que aquela noite de amor não fosse demais para ele.

Abelardo nunca mais viu Paulicéia, porém, soube que ela estava presa, cumprindo pena por ter assassinado o marido. Neste momento acabava a história dos dois. Em um próximo, começaria outra e outra e outra história envolvendo Abelardo e as mulheres por ele seduzidas. Seria assim até o fim das contas.

Podia parecer uma missão divina ou então a temporada de caça às feias, mas não era nada disso. Era simplesmente o que Abelardo sentia e necessitava para apagar seu fogo. Eram tantas, tantas mulheres – uma em cada noite – que a memória insistia em falhar, mas a de ontem ainda estava fresca, tanto, que lhe umedecia os lábios.

Cíntia, olhos esbugalhados, mãos peludas, testa vincada, braços compridos e grossos, dentes tortos. Abelardo mal conseguiu segurar o que havia por baixo de suas calças quando a viu. Seus lábios umedeceram da mesma maneira que acontece quando agora pensa nela.

Apoiando-se com os ombros em cima da mesa, ela devorava aquele sanduíche enorme, abarrotado de ingredientes que pulavam para fora do pão. Abelardo foi direto e sentou-se bem em frente à Cíntia. Ela, apavorada com aquele estranho que, calado, não parava de olhá-la, tremia, sem saber o que significava aquilo. Abelardo, por sua vez, foi correndo a mão em cima da mesa de mármore, brincando com os dedos, até tocar em Cíntia.

“Será que nós dois poderíamos ir juntos a um local mais reservado?” ele disse. Ao invés de um sim, um não, ou um talvez, Cíntia tossiu. Tossiu como um porco em meio ao abate. Engasgada, sufocada e roxa, ela pedia ajuda com o olhar desesperado. Todos em volta olharam, mas ninguém tomou nenhuma atitude. Exceto Abelardo, que a qualquer custo iria salvar sua futura amante daquela noite. Pôs-se a golpear a robusta mulher até que aquele corpo estranho que a fez engasgar saísse. Depois de muito tentar, lá estava a rodela de tomate que voou pela garganta de Cíntia. O tomate assassino.

Aliviada e feliz por ter sobrevivido ao episódio traumático, Cíntia sentia um enorme sentimento de gratidão a Abelardo. Este, era corroído por um turbilhão de emoções, todas elas tangidas por um tesão arrebatador. Era agora ou nunca. Era a hora de colher a bonança por ter sido um herói.
“Eu quero ter você entre os meus braços, entre os meus lençóis. Eu quero ter você esta noite” disse Abelardo com o olhar mais brega deste mundo, e com o coração mais aberto também.

Sem pestanejar e com lágrimas no canto dos olhos, Cíntia disse que sim, como quando se aceita um pedido de casamento ou então quando se sobe no cavalo do príncipe encantado.

Foram os dois a mais uma noite de amor para Abelardo, a uma exceção para Cíntia. Foram os dois copular como animais ensandecidos. Foram os dois amar como os mais puros gênios da poesia.

Na mesma lanchonete, uma linda e bulímica mulher que comia pratos gordurosos, como todos que eram servidos ali, estava prestes a se dirigir ao banheiro para lançar tudo descarga abaixo, quando ficou pensando no que acabara de ocorrer. Em como Abelardo, aquele homem grande, sedutor, negro, e, provavelmente, bem dotado, tinha agido há pouco.

Ela, uma mulher frígida, que nunca havia se apaixonado ou sentido tesão de verdade por alguém, agora sentia as duas coisas por aquele homem que ali passou. Glória, como era seu nome, sorriu introspectivamente, com a calcinha molhada e já certa de seu êxito em conquistar Abelardo. Bonita e rica, ela podia conseguir qualquer coisa que desejasse, ou pelo menos era assim que pensava. Sobre isso, não podia ser diferente: Abelardo seria seu, custe o que custar.

É manhã. A campainha da casa de Abelardo toca. Estranho, já que ninguém costuma ir até sua casa. Ele vai, desconfiado, atender. Pela vidraça fosca da porta, enxerga com dificuldade algo que parece ser uma silhueta feminina.

Ao abrir a porta, lá estava ela, aquela mulher estranha chamada Glória. Com um chapéu vermelho e um casaco de pele de raposa, ela se apresenta:

“Olá. Meu nome é Glória Alívida”.

Abelardo, com sua extensa ficha de conquista, nunca havia visto mulher de tamanha beleza. Sentiu automaticamente enorme asco. Exatamente por isso, ele permaneceu imóvel, colado junto à porta, olhando para os luxuosos sapatos de Glória manchados de lama.

“Você não vai dizer nada?”, falou Glória, irrompendo o silêncio.

Abelardo refletiu por alguns segundos. Pensou em trancar a porta e ligar para a polícia. Sentia medo daquela mulher.

“Eu não estou me sentido confortável para falar, então, agradeceria se a senhorita pudesse ir embora.”

“Mas não, eu não vou embora”. Ela empurrou Abelardo da frente, fechou o guarda-chuva e entrou de uma vez.

“Mas... mas o que você está fazendo, sua maluca?!”, disse Abelardo, ainda desequilibrado do empurrão.

“O que eu estou fazendo? Não se finja de desentendido. Só estou conhecendo a casa do meu futuro marido, do pai dos meus filhos, do meu negro viril, do meu...”

“Escuta aqui, ou você sai agora mesmo, ou eu ligo pra polícia, ouviu bem?”
Ignorando o ultimato de Abelardo, Glória começa a inspecionar a casa:

“Há quanto tempo esta casa não é espanada? Veja só, eu passo meu dedo no corrimão da escada e encontro quilos e mais quilos de poeira...”

Abelardo corre para a saleta, vasculha a primeira gaveta do criado-mudo e retorna com algo nas mãos.

“Você prefere sair por bem ou por mal?”, ele ameaça, com um revólver em punho.

“Isso! É assim que eu gosto, garanhão! Bate em mim, bate! Atira no meu ombro e aprecia meu fluido vital espalhando-se pela tua casa. Eu morro, morro de amor se for preciso.”

Abelardo abaixa a arma e dá alguns passos para trás.

“Eu não te conheço, não sei de onde veio, mas, uma coisa é certa, você está totalmente transtornada! Vou ligar para a polícia e esta situação vai ter de se resolver agora.”

Glória foi escorregando as costas pela parede até cair de vez no chão, e passou a arranhar as unhas em um sofá que estava ao seu lado.

Abelardo ligava para a polícia e Glória conservava um estranho sorriso de prazer. Deleitava-se com a situação, inebriada por aquela obsessão que passou a sentir por Abelardo.

“Muito bem. A polícia vem aí. Espero que te levem pra bem longe daqui.”

Glória calou. Ficou como estava. Virou uma estátua, ao lado dos outros ornamentos, adornando a sala. Com o mesmo sorriso congelado, os olhos estáticos e fulgurantes, ela permaneceu contemplando Abelardo. Saboreando os últimos minutos que lhe restavam. Pelo menos por enquanto, pois ela tinha planos e mais planos para que aquele homem fosse seu. Para sentir aquele corpo negro, rígido, robusto, em meio a suas entranhas. E começou lá mesmo. Começou a pensar, a maquinar, como se seu cérebro fosse mais um computador a desarquivar, ler dados, achar combinações. Como se seu cérebro fosse um computador sobrecarregado, superaquecido, viajando na velocidade máxima que se podia chegar.

A polícia chegou. Ela não se deu conta. Não se deu conta, até o momento de que quando Abelardo explicou toda a história, um oficial tocou no seu ombro direito. Glória voltou ao mundo dos vivos. Apenas virou um pouco o rosto em direção ao do policial. Manteve a mesma expressão. Estava lá, e ficaria por dias a fio.

Assombrado, Abelardo viu aquela mulher doente, saindo acompanhada por dois oficiais. Eles a colocaram na viatura. Pelo vidro, o olhar tenaz, um míssil que persegue seu alvo. O pescoço quase completamente torcido e Glória hipnotizada.

Abelardo trancou a porta. Não conseguia mais dormir. Precisava relaxar hoje à noite. Precisava encontrar a mulher mais feia e carcomida da cidade para uma noite de êxtase.

Depois de passar algum tempo numa clínica psiquiátrica, Glória recebe alta. Saindo de lá, pega um táxi e desce algumas ruas à frente.

“É aqui mesmo, senhor”, ela disse.

Olhou com os olhos bem abertos uma luxuosa loja de artigos femininos. Viu aquelas maquiagens todas, aquelas lindas roupas de grifes famosas, aquelas joias que ofuscavam os olhos. Tudo aquilo pareceu uma grande incógnita quando o assunto era seduzir Abelardo. Acabou não entrando. Andou mais alguns metros. Empurrou a porta de vidro de uma loja de produtos químicos, comprou um frasco de ácido sulfúrico e foi embora com o sorriso de míssil.


domingo, 10 de maio de 2009

Hoje é o dia!


Hoje é o dia de celebração do Só Lhe Dão Solidão, porque, desde quando eu comecei a escrever aqui, precisamente em 16 de dezembro de 2008, uma terça-feira, hoje é o dia que sinto mais o significado desse título que dei ao blog. Todo o vácuo da falta de possibilidades e de querer qualquer possibilidade me bate na porta geralmente aos domingos. Estranhamente, hoje, veio mais cedo. E amanhã, provavelmente, tem a dose dupla.

Geralmente, estranhamente, provavelmente, haha.

Às vezes, acho que cometo uma experiência comigo mesmo. Eu me faço de cobaia para uma outra parte que quer passar. Crio coisas e deixo no ar um outro eu, que é o mesmo, e somente tem a necessidade de ser outro, para ser dois, não diferentes. Então, esse meu outro eu diz: "Tudo bem!", para o outro que se esforçou anteriormente. Num pequeno mundo à parte eu selo minha órbita e tento manter do lado de fora o indesejável.

Por falar em órbita, é engraçado perceber como a sua anda desritmada, cheia de passos para trás.

Como em uma festa que se preze não podem faltar os quitutes, já pus o meu na boca. É um Crocante da Garoto.

Photobucket

Olha a roupinha dele aí.

Música também é indispensável, por isso, selecionei quatro clipes perfeitos para se sentar numa cadeira giratória, rodopiar uma só vez e parar. Todos usam câmera lenta e acertam em cheio o ritmo da sua órbita.

Com o passar dos dias, meses e anos, vou encontrando metáforas. Estou esperando o despertador me acordar.





Muse - Unintended





Radiohead - Nude





Beck - Lost Cause





Placebo - Follow the Cops Back Home


sábado, 2 de maio de 2009

Canções suspeitas


As cantigas de roda ou, simplesmente, algumas canções populares que caíam na boca das criancinhas, acabaram virando o trauma de muitas. E isso não se deve a eventos associados à época ou ao momento que essas "graciosas" canções invadiam os ouvidos dos pequenos. Não! A música em si já trazia algo de sinistro. Sabe, notinhas inocentes que dão voltas e se repetem à exaustão. Era na melodia que nós ficávamos atentos, mas as letras é que demonstram o tom mais pavoroso da coisa. A maioria sempre acaba em tragédia.

Duas que particularmente não me deixam nem um pouco feliz são "A Velha a Fiar" e "A Dona Aranha".





Curta produzido em 1964 que dá vida à canção.

"Estava a velha em seu lugar
Veio a mosca lhe fazer mal
A mosca na velha, a velha a fiar"

Pronto, e por aí se repete, sempre algo a fazer mal a outro algo, haha. Aposto que essa mosca queria mesmo era depositar seu berne.

"A dona aranha
Subiu pela parede
Veio a chuva forte
E a derrubou"

Já começa mal a dona aranha.

"Atirei o pau no gato-tô-tô
Mas o gato-tô-tô
Não morreu-rreu-rreu"

Esta é uma das mais conhecidas. Se você atira um pau no gato e ainda diz que ele não morreu, é porque teve a intenção de matá-lo. Se ele não morreu, passou perto. Certamente, o infeliz do animal continua a estribuchar no seu castigo eterno cada vez que cantam essa música.

"Boi, Boi, Boi
Boi da cara preta
Pega esse menino que tem medo de careta!"

Quer dizer, o garoto tem medo de careta e ainda mandam um boi da cara preta levá-lo pro além.

"Cai, cai balão
Cai, cai balão
Aqui na minha mão
Não cai, não
Não cai, não
Não cai, não
Cai na rua do sabão"

O governo não para de alertar com seus informes publicitários o quanto é perigoso sair soltando balões por aí. Nesta, o sujeito pretende no mínimo sofrer queimaduras de 3º grau ao ordenar que o balão caia na mão dele. Depois, volta atrás e muda a rota do balão, agora quer que caia na rua doa sabão, ou seja, praticamente um novo desastre daquele que aconteceu em Diadema, onde uma indústria de produtos químicos de limpeza foi aos ares.

"O anel que tu me destes,
Era vidro e se quebrou

O amor que tu me tinhas
Era pouco e se acabou"

Ciranda, cirandinha! Ah, eu cantava bastante esta. Se o amor era pouco e já até se acabou, será que esse anel de vidro foi dado com uma má intenção? Certamente. Neste caso, vão-se os anéis e levam junto os dedos também.

"O cravo brigou com a rosa,
Debaixo de uma sacada,
O cravo saiu ferido,
E a rosa despedaçada"

Esta já preparava as crianças pra violência doméstica que futuramente elas poderiam presenciar.

"Samba Lelê está doente
Está com a cabeça quebrada
Samba Lelê precisava
De umas dezoito lambadas"

Não basta estar doente, com a cabeça quebrada. Ainda é preciso dezoito lambadas, ou pancada, batida, golpe.

Enfim, exemplos não faltam.

Assim como as bonecas têm espaço garantido nos filmes de terror, bem que as cantigas de roda, canções populares adotadas como músicas infantis, mereciam mais espaço nas películas do tipo. Se lembram do "Um, dois, Freddy vem te pegar...?", pois é, um tiro certeiro para o clima sombrio.




E, tão popular na internet, o vídeo de sapateado de Goddess Bunny, um travesti vítima da poliomielite, musicado com "La Pequeña Araña".





quarta-feira, 29 de abril de 2009

Nightmare Man


O pai da Sasha (Luciano Szafir)

Photobucket

Mais um filme trash de terror produzido nos Estados Unidos

Photobucket

É igual a Nightmare Man:

Photobucket

Pela capa até parece coisa de primeira linha, não é? Qualquer dia desses eu preciso assistir isso!

Mais informações em:

http://www.bocadoinferno.com/


sábado, 25 de abril de 2009

Você não bateria num cara de...


Photobucket

Agora eu uso óculos, haha!


Visita


Uau! Quinze dias sem uma atualização! É assim, a gente vai ficando inerte, inerte, inerte, até que estagna de vez. Mas agora, quase como uma faxineira virtual com o dever de tirar a poeira e as teias de aranha daqui, recebam o meu conto, Visita:

Tarde da noite. Nem sei que horas da noite, mas tarde. A janela entreaberta e a luz forte da lua a penetrar. Minha mãe na cadeira de balanço, balançando, mas dormindo. Sonâmbula. Alguns pedaços de tricô, agulhas e panos esfarrapados sobre seu colo. Eu passava por ali. Ia direto para meu quarto, mas tinha alguém na sala. Parei para ver quem era. Minhas pernas já trêmulas. Adrenalina bombardeada. Mas, calmo. Fingi estar calmo. Devagar, acendi a luz.

Era simpático o rapaz sentado na poltrona. De pernas cruzadas, calça jeans justa e um terno preto. Ele, desde o escuro, tinha os olhos em mim. Já me esperava ali. Sabia que eu ia acordar e tomar um pouco de água na cozinha.

“Estive te esperando por um bom tempo”, disse-me, animado, deslizando os dedos pelo estofado da poltrona.

“Acho que está havendo um equívoco aqui”, eu respondi, ainda fingindo estar calmo.

“Equívoco nenhum.”

Fiquei por um momento tentando rastrear aquele rosto na minha memória. Aquele rosto jovem, mas com um pouco de rugas. Com um toque de velhice. Queria não ser descortês, mas não lembrava. Tinha de perguntar. Para minha segurança, eu tinha de perguntar.

“Realmente sinto muito, mas não sei quem é você.”

“Sei que não me conhece, meu caro amigo. Só eu lembro de você.”

Certo, eu tinha de manter a calma. A pouca calma que fingia ter. Poderia ser um sequestrador, daqueles dos sequestros relâmpagos. Mas eu não tinha dinheiro. Melhor, minha mãe não tinha dinheiro para pagar o resgate. Ele iria cortar cada pedacinho meu e enviar pelo correio de aperitivo. Uma orelhinha, depois um dedo, depois um nariz. Cada coisa por vez. Cada coisa por semana. Certo, eu não preciso me desesperar. Não devo fazer movimentos bruscos. Mas e se ele for um serial killer? Se ele for alguém que nem o dinheiro para. Que só quer mais um corpo na sua mesa de cirurgias? E se ele for apaixonado por mim? Um daqueles admiradores secretos obsessivos? Tenho de me concentrar no telefone. Tenho de me concentrar no telefone. No telefone vermelho, reluzente. Tenho de segurá-lo firme e acertar sua cabeça. Na nuca, para desacordá-lo. Se eu matá-lo, será legítima defesa. Não consigo. Minhas pernas estão tensas demais para se mexer. Perdoe-me, mãe. Eu falhei desta vez. Escorraçar um bandido de casa e não consigo. Desculpe-me. Vou fazer o que ele quiser para tentar permanecer vivo. Espero que Deus tenha piedade de mim. Sei que Deus não tem nada a ver com isso. É, eu sei. Que pelo menos não doa, Deus.

“Você parece nervoso”, ele disse. “Desculpe-me pela maneira que te abordei. Isso de ficar esperando no escuro não foi uma boa ideia, mas sua mãe permitiu que eu entrasse. Vi que ela parecia dormir e apaguei a luz para não incomodá-la.”

Então era isso. A velha agora colocava estranhos dentro de casa. Não bastava os chiliques que ela dava achando que alguém mexeu nos seus tecidos, tesouras, agulhas. Ela, sempre ela. Ela mesma. Só que esquecia do que fazia. Esquecia com frequência. Não esquecia de esquecer. Nunca me incriminava diretamente. Mas passava horas gritando: “Alguém mexeu nas minhas coisas! Quero saber quem foi o maldito bandido!” e ficava olhando para mim. Quando isso acontece, sempre tenho de procurar as velharias da velha. E sempre as encontro nos lugares mais inusitados: pia, geladeira, jardim. Espero não encontrar agulhas na comida.

Ele aproximou-se de mim amigavelmente. Não reagi. Eu era só um corpo que obedecia ao que ele queria. Com aquela mão no meu ombro indicando a direção.

“Tem mais alguém aqui te procurando.”

Mais alguém? Era o carrasco? O executor? Adeus, dias cruéis! Fomos até meu quarto. Meu quarto escuro, frio, desgastado. Meu receptáculo de todas as noites. Arqueei as sobrancelhas, porque suas características mudaram.

“Veja, seu nome é Elisa”, disse o rapaz misterioso, apontando para uma garota que parecia ter aparecido ali depois de um nariz retorcer. Depois de um pó de pirlimpimpim.

Ela, sentada, sorridente, acenou para mim. Disfarçou o riso. Rodopiou na cadeira. Sorriu de novo. Maluca. Com plumas em torno do pescoço. Ela estava feliz. Muito feliz. Rodopiando. Se exibindo para mim.

Meu quarto, redecorado, vivo, cheio de cores, piscas-piscas, globo de luz iluminando um música indecifrável. Meu quarto zumbi, derramando uma urbanidade doentia, do concreto que retém as pessoas em casa. Nós três, lá, aconchegados, no meu quarto. Eu não sabia o porquê. Não precisava de perguntas. Assim que vi Elisa, assim que seu perfume se misturou às minhas coisas, àquelas luzes, eu soube que ela poderia ficar lá. Nós três. Obrigado, rapaz, por ter me apresentado Elisa. Nós três.

“Entre, Ana”, ele falou e interrompeu meu pensamento.

“Entre, Ana”, reforcei.

Ana esfregou suas botas de cano curto no carpete e entrou, tímida. Ria menos por conta da sua timidez. Era linda. Não tanto quanto Elisa, mas ainda sim sublime. Ela se aproximou. Aproximou-se do meu amigo misterioso. Encostou-se em seu ombro. Conhecia meu amigo misterioso e não dava bola para mim. Ainda bem que não, para não causar confusão. Ela dava bola para o rapaz misterioso. Elisa era quem dava bola para mim.

Ai, ai, Elisa. Você aqui e eu não sei nem o que te dizer. Também não quero dizer nada. Não quero estragar as coisas. Já me afundei tanto em palavras que não há mais sentido em repetir isso. Já me afundei tanto querendo explicar detalhe por detalhe, centímetro por centímetro, átomo por átomo dos meus sentimentos para que as pessoas acreditassem. Não precisava mais disso. Era só me deixar guiar pelos teus olhos fugidios. Teus olhos que não param quietos um minuto.

“Vou pegar cerveja para nós”, eu disse. Elisa veio comigo.

Eu me senti bem. Senti-me independente. O rapaz com a sua. Elisa comigo. Era uma noite legal. Elisa pegou a sua, eu peguei a minha gelada. Levamos três: duas para o rapaz, uma para Ana.

A cerveja ótima, no ponto. A espuma boa. A cevada boa. Eu e Elisa calados, encostando o gargalo nos lábios, brincando com a saliva e o resquício de cerveja na boca. O rapaz e Ana conversando freneticamente. Nós quatro sentados na cama. A música rodando. Rodando tão indecifrável quanto o que o rapaz e Ana diziam. Elisa finalmente disse algo. Não entendi:

“Onde fica o banheiro?”

“Hã?”

“Onde fica o banheiro?”, disse mais perto do meu ouvido, com aquele hálito de menta e cerveja.

“Eu te mostro”.

Levantei-me e fui lá, mostrar o banheiro. Era a cerveja fazendo efeito. O rapaz e Ana não olharam para nós. Eles continuaram a conversar. Eram muito legais.

Elisa fechou a porta. Eu fiquei esperando ela ali. Sentia falta. Ficava com medo de que não saísse mais de lá. Demorou um pouquinho. Acho que travou no começo por estar numa casa estranha. Depois escutei o xixi batendo no vaso. Ela demorou mais um instante. Abriu a porta. Sorriu para mim. Olhei seus dentes alvos, seus lábios rosados. Lembrei-me do cheiro de menta e de cerveja que ela bafejou. Aquilo me deixava vivo. E que delícia seria se eu pudesse sentir de novo, mais perto. Se fosse um beijo com aquele bafinho. Eu pensava rápido nessas coisas. Pensava enquanto ela se recompunha do banheiro. Enquanto terminava de enxugar as mãos na calça jeans.

A segurei pelo braço e nós voltamos. O rapaz e Ana a mil. Conversando como antes. Os dois davam pequenos saltinhos na cama quando iniciavam uma frase. Fervilhavam os dois. O rapaz não poderia ser mais denominado de rapaz misterioso. Ele tinha deixado a identidade e alguns trocados em cima do meu criado-mudo. Estavam amassados. Tirou do bolso de trás da calça. Eu olhei. Olhei e ri. Seu nome era João. Não poderia mais chamá-lo na minha cabeça de rapaz misterioso. Ri da foto 3x4. O cabelo dele grande, encaracolado, diferente de agora. Um aparelho nos dentes, uma espinha enorme bem no meio da testa.

“Ei, Elisa, olhe”, eu disse, segurando a foto no alto.

Elisa se aproximou, pôs os olhos próximos e riu. Riu feliz e caiu em cima de mim. João – ai! que falta faz chamá-lo de rapaz misterioso -, puxou a identidade da minha mão com força, também sorrindo.

“Essas fotos são horríveis. Nem Scarlett Johanson ficaria bem numa assim”.

“Scarlett Johanson”, eu disse, “por que logo ela?”

“É a minha musa pessoal.”

Ana deu um tapinha no braço de João brincando de ciúmes. Ana era dona dele então. Namorada de João. João e Ana, legais. Eu e Elisa, ainda a sobrar. Eu tinha de ser mais incisivo, menos covarde. Elisa estava na minha, eu acho. A noite perfeita. Tudo colaborava. Elisa perto de mim. Ai, Elisa. Fingi pegar algo no criado-mudo. Passei o braço por cima dela. Encostei o nariz nos seus cabelos. Àquela altura, estávamos perto demais. Captei seu segundo cheiro. Aqueles cabelos macios no meu nariz. Aquele cheiro de shampoo infantil me fazia lembrar a infância. Fazia-me lembrar de quando escorreguei no banheiro e rachei a cabeça. E do sangue aflorando, cobrindo meus olhos, meu nariz, a boca. Eu nu, água, suor, sangue. As coisas vermelhas. Esta lembrança agora parecia uma pétala de rosa caindo, graças a Elisa. Graças a Elisa que usa o mesmo shampoo que eu usava naquela época. Naqueles bons tempos, que ganhar um brinquedo com a cabeça rachada e no hospital era felicidade.

Voltei. Retornei da imersão nos cabelos de Elisa. Ela riu. Gostou do quase abraço surpresa. Disse que queria brincar comigo. Brincar como? Não com meu coração, não é, Elisa?

“Vou te maquiar.”

Ah, não. Era humilhação demais. Por favor, Elisa, não queira que eu seja seu amigo gay. Não levo jeito para essas coisas, sinceramente.

“Confie em mim”, ela disse, tirando o estojo de maquiagem de uma bolsinha preta.

Não poderia negar esse capricho a Elisa. Queria continuar sentindo o cheiro dela. Sei que Ana e João ririam de mim. Mas seria divertido até.

Seus dedos se aproximaram do meu rosto, cobrindo-o com pó-de-arroz. Estava quietinho, esperando ela terminar. Estava olhando para suas mãos, fininhas, o esmalte descascado. O esmalte vermelho, da cor do meu sangue no banheiro. Suas mãos exalavam o terceiro cheiro. Adocicado. Cheiro de produto tóxico que dá vontade de comer. Cheiro de detergente de maçã. Elisa parecia feliz. Eu não me sentia tão bem em vê-la rindo da minha cara. A verdade é que nunca me levaria a sério.

“Estou quase terminando”, ela me acalmava.

João e Ana ainda não haviam prestado atenção em mim. Elisa remexeu na bolsinha. Procurou, procurou e achou o batom, vermelho, mais vermelho que as unhas descascadas, mais vermelho que o sangue na minha infância. Elisa, por que eu? Por que eu para drag queen? Não poderia ser o João? Ele tem uma namorada. As pessoas não desconfiariam. Ele podia provar, provar que era muito homem. Eu não. Eu pareço um garoto. Um garoto assustado que treme quando você mexe os braços na minha direção. Vamos! Termine logo com isto. Eu não podia dizer. Não podia exigir.

“Pronto, terminei”, ela disse orgulhosa do seu feito, da sua experiência.

Elisa me puxou pelo braço, me guiou ao espelho. João e Ana sorriram, mas não debocharam.

“Agora você é Robert Smith!”, Elisa falou quando vi minha imagem.

Gostei da surpresa, gostei da fantasia. Gostei de como ela arrepiou meu cabelo sem que eu percebesse. Também, aquelas mãos pareciam pequenas almofadas. Pequenas nuvens que se dissipavam depois de serem atravessadas por um avião e retornavam à sua forma anterior. Elisa poderia roubar algo de mim. Talvez já tivesse roubado. Pois, enquanto os centímetros e a estranheza nos separavam, eu sentia um vazio, indescritível como um vazio deve ser.

“Agora vamos tirar umas fotos.”

Fiquei tonto com os flashes. Meu quarto era uma boate de pessoas loucas. Meu quarto era o lugar que tocava a música que ninguém nunca escutou e que ninguém nunca saberia se tinha escutado. Era indecifrável. Elisa era inefável. João e Ana eram essenciais. Não consigo definir suas posições no tabuleiro, mas eles deviam permanecer lá, sempre. Depois de quatro fotos, coloquei a mão em frente à câmera.

“Tudo bem”, Elisa parou.

Tudo bem, eles disseram. Eu não ouvi o que, mas entendi. Trouxeram um jogo de tabuleiro. João e Ana, Elisa e eu. Bons times. A partida começou. Eu não sabia o objetivo do jogo, não conhecia as regras. Só via as mãos de Elisa deslizarem no tabuleiro. Só via suas mãos afortunadas jogando os dados e comemorando depois. Ganhando para nós. Fomos os vencedores. Que bom aquilo ter terminado logo. João e Ana satisfeitos, Eu e Elisa livres. Livres até eles arranjarem algo mais para fazer. Algo mais para esquentar aquela noite, aconchegante, solitária. Aquela noite que parecia ser habitada apenas por nós quatro.

Elisa se enfadou. Por um minuto ela se enfadou. Abriu a primeira gaveta do meu criado-mudo. Lá estavam fotos que eu não sabia onde tinha guardado da última vez. Fotos da minha infância, chorando por não ter ganhado um caramelo, pelo palhaço feio e suado. Chorando por chorar.

Elisa riu do meu choro, riu das empoeiradas fotos polaroid. Meu choro infantil serviu para alguma coisa enfim.

Também cansei. Estiquei-me na cama. João e Ana por sua vez, continuavam sentados na ponta. Continuavam dando saltinhos, radiantes. Elisa viu e reviu todas as fotos, as poucas fotos. Ia se entregando ao marasmo. Foi até a janela, observou a rua por pouco tempo. Ninguém. Ninguém para confirmar se estávamos vivos. Nem gatos saindo das lixeiras.

Elisa esbaldou-se na cama também. Nós dois deitados, como se fôssemos fazer anjos na neve. Venci então o medo da rejeição. Encostei minha cabeça no seu ombro de um jeito mais íntimo. Voltei ao segundo cheiro, o dos cabelos. Cada vez que eu retrocedia a essas experiências aromáticas, algumas reminiscências eram despejadas em rápidos flashes. Pude me ver num dia de sol. Um sol que atravessava os cílios, que chamuscava os olhos. Que fazia o movimento das pessoas mais onírico. Acho que um sol com gravidade zero.

Movimentos lentos, frame por frame. Surreais. De dar enjoo. Belos. Um paradoxo que teimava em existir. Um momento que eu não queria nunca que chegasse ao fim. Atordoado como um morcego de sonar falho.

Seu corpo aproximou-se delicadamente do meu. A luz alaranjada do abajur incidindo no seu rosto como o sol que chamuscara meus olhos. Não enxergava muita coisa. Apenas instantes. Pequenos instantes que restavam no meu cérebro alheio à ordem natural das coisas.

O coquetel desceu goela abaixo cantando indecifravelmente, iluminando a garganta, laranja como o pôr-do-sol, com jeito de cerveja e menta. Seus lábios encostaram-se nos meus. Também almofadados, não como nuvens que se desfaziam. Os sentia lá, intactos, só eles, como se tivessem vida própria. Como se pertencessem a outra realidade. Não sei ao certo o que Elisa pensava naquele momento. Acho que não pensava. Acho que era vazio, assim como eu tinha por dentro. Vazio que clamava por ser preenchido eternamente.

Tudo parou. A música parou, as luzes se apagaram, os pelos se acomodaram e os lábios foram nuvens dispersas de novo. Tudo parou quando o vazio fez-se maior do que meu corpo poderia suportar. O coração parou por um instante de bombear aquele momento. Acordei tragando o vazio. Acordei querendo respirar mais o perfume de Elisa do que oxigênio. Acordei sozinho, entre os meus lençóis. Acordei escutando gatos remexendo as lixeiras e mendigos querendo espeto de gato. Acordei com as fotos arrumadas na gaveta. Acordei sem o amor que vivia na minha cabeça.




A TV exibindo o nada. Sintonizada numa ode ao vazio. Os gatos lá embaixo cansaram do lixo e foram passear. Cada uma das suas sete vidas era mais excitante que a minha. Mamãe tricotava, sonâmbula, o vazio. Tricotava um cobertor eterno que voaria pela janela e daria a volta ao mundo.

Ia à cozinha todas as noites tomar um copo de água com um vácuo no estômago. Todas as noites eu passava pela sala. Esperava alguma sombra se mover. Esperava um sorriso fácil de Elisa em meio à escuridão. Não funcionava muito bem. Os cheiros permaneciam na cabeça, mas não atravessavam o nariz. Uma foto polaroid em branco no criado-mudo, um risco, uma silhueta feminina, as nuvens. Dormia cada dia mais cedo. Quem sabe, amanhã.


sexta-feira, 10 de abril de 2009

Direitos humanos! Haha.


Photobucket

Isto é de 1999. Tem dez anos. É um certificado de participação da campanha do Futura, "Direitos Humanos, Faça Valer". Como eu me orgulhava de ter recebido, haha. Lembro-me que contribui com um desenho de uma criança trabalhando no campo e, em cima de uma colina, a escola, o lugar onde ela realmente devia estar, haha. Ainda escrevi um poeminha na folha, com uma letra tortuosa. Recebi uma caneta, um cartão e este certificado. Eu achei incrível! Hoje tem valor sentimental.

E eu aprendi que os direitos humanos não são tão garantidos assim.


quinta-feira, 9 de abril de 2009

A Partir de Agora


Este conto resume bem minhas impressões sobre meu trajeto quase diário à universidade. Coisa que requer de mim um certo esforço emocional.

Chegou a hora. Vejo no relógio. 18:15h. Chegou o momento de sair por aquela porta. Meus cabelos moldados pelo travesseiro, meu eu sem camisa. Alguém que não quer partir, que prefere ficar à deriva de dias lerdos. Vejo em cumprir a obrigação apenas um requinte masoquista. Sem mais resistência, visito o cadafalso todos os dias. Aliso meu pescoço como se nele vivesse uma gravata fantasma que aperta, nunca cede. Entrego-me logo às aulas de Direito, aos dias. Entrego-me logo ao chuveiro. Antes, checo a roupa. Escolho uma qualquer. Ponho sobre a cama.
Desce a água, molha a cabeça, e eu poderia ficar mais. Poderia viver mais sob o chuveiro e achar que é tudo água, que tudo escorre pelo ralo e vai para um esgoto comum. Mas me sinto pressionado. Tenho de ir. Tenho de cumprir logo. Não importa o atraso, não importa a pontualidade. Apenas corro como alguém que anda sem parar. Corro como alguém que vive parado. Correr para sempre é nunca mais se mexer. Fecho o chuveiro, me enxugo, escovo os dentes, passo os dedos entre os cabelos.

Cueca, calça, camisa, meia, tênis. Estou pronto. Até que ponto vestido? Não sei. Abro a porta, despeço-me de minha mãe. Caminho ainda tentando corrigir a postura. Piso os pés na calçada. Sigo o rumo que sobra. Vejo as velhinhas sentadas, conversando sobre o quê? Não sei. Sobre a igreja? Prefiro imaginar que conversem sobre perversidades. Perversidades mais perversas por serem velhinhas. Enfrento o declive. O lava jato, a delegacia, a biblioteca pública. Passo pela luz do poste, sempre olhando em sua direção, ofuscado, quase no mesmo ângulo de visão que tenho da lua. Imagino um eclipse, do meu mundo, pequeno, do poste, com o desconhecido, a atmosfera lunar.

Na rua, os carros passam, as motos cortam o ar, superlotadas, as bicicletas tentam chegar a algum lugar. Espero, me irrito com esse improvável trânsito. Mais velhinhas na calçada, aproveitando a velhice. Como é bom ficar velho. Atravesso a rua, subo alguns degraus da igreja da matriz. Tenho a impressão de que as velhinhas me olham pelas costas, de que se perguntam por que eu não me benzo como todos. Talvez não se perguntem sobre isso, mas eu imagino alguém reparando em mim.

A praça e suas luzes, suas pessoas, suas fontes de água. Quase como um Lego empoeirado, montado há anos, sem mover uma peça. Um senhor de cabelos brancos e meio calvo fala comigo, acena com o braço. Eu paro. Quero ser gentil, dar ouvido a todos. Ele me pergunta se não quero livros, bons livros. Fala sobre os livros, diz que são difíceis, diz que pagou muito por eles com todas as tarifas dos correios. Sinto muito, senhor. Eu não quero seus livros, mesmo que tivesse dinheiro. Acho que ele quer uma companhia, alguém para falar sobre livros. Alguém para falar sobre João Cabral de Melo Neto em meio àquelas merdas de pássaros que cobrem o banco. Senhor, venda seus livros para as velhas, elas precisam mais do que eu, pensei enquanto olhava um pardal morto perto dos meus pés.

Atravesso outra rua, na calçada, pessoas bebendo. A TV do bar ligada exibindo futebol. A fumaça e o cheiro de carne queimada abraçam por um momento meu corpo. Próximo a uma farmácia, velhos jogando dominó, sentados, batendo as peças com força, eufóricos. Lembro do dia que eles começaram. Eram um ou dois, desanimados. Agora eu os vejo apostando dinheiro, cobrando os que devem, exaltando suas potencialidades no jogo. Como é bom ficar velho. Nós nem precisamos viver, apenas sobreviver.

Becos, ruelas, aperto. Divido as calçadas com cadeiras, bicicletas, caixas abandonadas. Desvio. Exercício constante. Queria poder seguir reto às vezes. Apenas fechar os olhos e seguir, mas sempre tem algo deixado no caminho pra gente tropeçar. Por isso mantenho os olhos abertos, o suficiente para enxergar meu reflexo num espelho ao fundo de um velho salão de cabeleireiro. Tesouras sujas, enferrujadas, atracadas nos dedos. Tesouras que decepam orelhas como borboletas carnívoras assanhadas. As luzes fracas de mercúrio, penumbras assombrosas. Minha sombra projetada no chão, menos apática que eu. Aí vem aquele cheiro, suave mas incômodo. O cheiro da madeira dos caixões que esperam seus cadáveres em pé. A madeira velha, no ponto, quase como um instrumento musical. Madeira influencia diretamente na afinação. E, no meio de todos aqueles caixões dispostos um ao lado do outro, um velho assistindo TV, sem camisa, sentado numa cadeira de balanço, vendo a novela sem preocupar-se com a morte. Como é bom ficar velho.

Passo por alguns mototáxis na esquina. Parecem solitários, sempre esperando alguém que requisite seus serviços. Eles olham ao longe e contam piadas escorados na parede. O asfalto vai ficando mais sujo, mais marcado. Sinto cheiro de peixe podre, cheiro de mercado municipal. Desvio de um pedaço de carne jogado no chão. Tomates, batatas, cebolas, todos esmagados, colados no piche, como se brotassem dele também. Tenho este como meu lugar preferido da cidade. Pelo menos é o mais honesto, sem maquiagem alguma. Caminho ouvindo os gritos da sujeira emanada pelos poros do lugar. É a verdadeira pele que vem à tona empapada de saliva, de urina. Quem sabe sangue? Quem sabe esperma? Sinto meus pés sujos, minhas solas marcadas, meus pensamentos perdidos sob um véu negro intransponível. Um véu que cobre toda a cidade por mais iluminado e perfumado que seja o ponto.

De esquinas vivem os bêbados. Sempre um bar aberto esperando o desejo por aguardente. E os clientes estão lá, sedentos por algo que lhes faça esquecer o dia. Alguns fazem bem, ficam no caminho, entulhados no chão, quase como as caixas esquecidas. Perto deles, uma poça, e na poça, um gatinho. Deve ter esquecido de comer e bebeu muita água. Lá, apodrecido, respeitoso. Só fede quando bate a brisa. E ele me deixa passar. Bares, sinais de trânsito, mercadinhos, um móvel antigo bloqueando a calçada, buracos, tampas de garrafas, cigarros, tijolos... Eu é que me embebedo dos personagens cotidianos que vivem intensamente meu caminho perdido. Nunca poderei lembrar de apenas um, somente de todos. Porque eles compõem e personificam a sinceridade do fracasso. Programado para parar em um ponto, eu simplesmente deixo de andar e me sento naquela cadeira da faculdade, inodora, mas quase tão fúnebre quanto a madeira dos caixões.


Vampiras!


Photobucket

E pensar que já faz 14 anos que eu tenho essa revista. Foi bom pra mim, aos seis anos de idade, aprender sobre como vampiras peladonas podem ser perigosas.

Imagem retirada da revista "Coleção Assombração nº 3 - Vampiras!"


sábado, 4 de abril de 2009

Paixões platônicas


Quem nunca teve uma paixão platônica? A menos que você não tenha um pingo de imaginação romântica, é claro que já passou por isto. Eu curto as minhas, todas as dorezinhas delas, haha. Me apaixono até pelas garotinhas dos comerciais de margarina. Aí vai uma lista, um tanto quanto duvidosa, de amores recentes e velhinhos, do tipo que a gente olha e pensa "essa é pra casar e nunca mais reclamar da vida":


Photobucket

1º Lugar: Julie Delpy

Ai, ai. Bonita, madura e aberta pra conversar qualquer assunto. Pelo menos é assim que a gente a vê quando ela dá vida a Celine em Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-sol. Ah! Tem outra coisa, ela ainda canta na vida real! E tem uma voz linda.

A paixão veio quando assisti Antes do Amanhecer.

Photobucket

2° Lugar: Rachel Bilson

O que Rachel tem de baixinha, tem também de linda. Dá vontade de fazer um chaveiro com ela e sair passeando por aí.

Ela acertou uma flecha no meu coração quando fazia a Summer do seriado The O.C.

Photobucket

3º Lugar: Elisha Cuthbert

Hoje, nem tanto, mas quando estreou a primeira temporada de 24 Horas, eu só tinha olhos pro ponteiro e para ela. Elisha era Kim Bauer, filha do durão Jack Bauer.

Não precisou nem de meia hora pra Elisha me deixar com os olhos brilhando.

Photobucket

4º Lugar: Yelle

Ah! A francesinha e moderninha Yelle ( Julie Budet) tem a aparência perfeita dos meus sonhos. Ela é magrinha, tem o cabelo curto, o nariz pontudo e, às vezes, aperece com umas olheiras que só me deixam mais inspirado.

Quando a vi malhando no clipe "Je Veux Te Voir", não teve jeito, foi paixão e amor à primeira vista.





Photobucket

5º Lugar: Thora Birch

O único contato que tive com o seu trabalho foi no filme Mundo Cão (Ghost World), de 2001. Mas foi o suficiente para que eu não esquecesse seu rostinho. Ela parece uma camaleoa, muda bastante de tempos em tempos, mas este visual de Garota-HQ para a personagem do filme foi o que mais me empolgou.

Quando ela pôs a máscara de Mulher Gato por um segundo, eu quis ser o Batman.

Photobucket

6º lugar: Audrey Hepburn

Audrey Hepburn parece mesmo uma bonequinha. Representando as divas clássicas do cinema, eis aqui um nome que mostra a beleza eterna corroborada com a deliciosa construção da personagem. Bem que podia nascer uma aqui assim, pertinho de mim.

Bem, eu acho que é a prostituta mais discreta do cinema, também, pudera, o filme foi lançado em 1961! Ainda bem que ela foge da devassidão, haha, senão não seria tão atraente.

Photobucket

7º Lugar: Caroline Williams

Confesso que tive de buscar o nome dela na internet, mas deste shortinho eu não esqueço nunca. Pelo que sei, Caroline não é tão popular, e o único filme que assisti onde ela consta no elenco é O Massacre da Serra Elétrica 2. Que, por sinal, é considerado um fiasco. Eu gosto, talvez até mais do que o primeiro.

A cena dela com uma serra elétrica entre as pernas é impagável e apaixonante.


Photobucket

8º Lugar: Joan Jett

Como se não bastasse cantar "I love Rock 'n Roll", ela tem também a beleza selvagem do Rock, e ainda continua em atividade, com um corpinho enxuto.

No clipe "Do You Wanna Touch Me", quando aparece de biquini, é que ela me faz querer tocá-la.





Photobucket

9º Lugar: Milla Jovovich

Em penúltimo lugar, Milla Jovovich, mais pelo seu papel em O Quinto Elemento, a extraterrestre Leeloo, que, por sinal, é graciosíssima, do que por todo o resto. Com a dificuldade que ela tem de falar a língua dos terráqueos, o cabelo laranja com uma aparência sujinha e as econômicas faixas brancas envoltas em seu corpo que deixam bastante à mostra, Leeloo é um exemplar digno de profunda admiração.

Adoro quando ela cai sobre o táxi voador. É um presente dos céus!

Photobucket

10º Lugar: Helen Slater

Por fim, a Supergirl que nunca teve superpoderes na carreira. O filme da prima do Superman foi um fracasso. Nem do próprio eu gostava, mas, inexplicavelmente, Supergirl me marcou na infância, não só de uma maneira desagradável. Hoje, eu tenho até o DVD, haha. A garota de capa vermelha veio de outro planeta e chegou à terra. Era tão caipira a coitada, mas bonitinha também.

Não me lembro bem, mas uma cena ficou engavetada na minha cabeça desde a infância, foi ela afundando na lama em uma dimensão paralela. Acho que é isso, haha.

Pequena miss raio de sol



Photobucket

Ontem eu estava mesmo necessitando assistir algo que me desafogasse um pouco das sessões carregadas e viscerais que ajudam a passar o meu tempo e a pensar por que ele não passa. Ou então, por que é tão rápido quando eu me dou conta. Assisti Pequena Miss Sunshine. É bonito, sensível, divertido, com uma pitadinha de drama. Talvez a melhor qualidade do filme seja dosar com competência todos os seus atributos.
Pequena Miss Sunshine é um daqueles casos não tão comuns de longas que sabem trabalhar de forma leve, sem incomodar quem o assiste em nenhum momento, mas também, sem cair na babaquice, sem parecer piegas. Porque, se for pra assistir inutilidades genéricas, besteirol que nem ao menos autocrítica tem, prefiro descer ao fundo do poço e cair como um peso de chumbo em cima das películas mais perturbadoras, aflitivas, pungentes.

Photobucket

Tendo como ponto de partida uma família totalmente desregulada, é que começa Pequena Miss Sunshine, e tudo segue uma linha simples de raciocínio (só para lembrar que, às vezes, a construção do mais simples, para que pareça simples, é verdadeiramente complexo). Simples é o desejo de Olive - ela quer participar de um concurso de beleza -, a garotinha protagonista. Complexa, e apresentada de forma simples, é a família dela. O pai trabalha aqueles velhos e fracassados métodos de auto-ajuda, mas, apesar de tentar ser o otimismo em pessoa, é visível em sua testa "perdedor". A mãe parece a mais normal da família, é a que tentarmanter as coisas calmas na hora do sufoco. O irmão mais velho não fala uma sequer palavra há um ano. O tio é um professor universitário que se apaixonou por um aluno e, rejeitado, cortou os pulsos numa tentativa de suicídio. O avô é usuário de heroína e vive pensando em pornografia. Esta é a composição da família de Olive. E ela, mesmo garotinha, parece conviver harmoniosamente com todos e ainda amá-los.

Photobucket

Reunidos e decididos a levar a "futura" Miss Sunshine ao concurso de beleza, a família parte em viagem numa Kombi que, de tão velhinha - mas bonitinha -, é sempre preciso alguém a empurrando para que ela passe a funcionar. É na viagem, que não parecia algo tão árduo, que os personagens vão superando suas limitações e revelando suas particularidades.
É isso, Pequena Miss Sunshine, pra você que procura algo de mais fácil digestão sem decréscimo de qualidade.