quinta-feira, 3 de junho de 2010

domingo, 30 de maio de 2010

Macumbapop


Quando assisti pela primeira a um vídeo da Marli no Youtube, eu fiquei intrigado, me perguntando por alguns instantes de que dimensão aquilo tinha vindo. Um fundo musical digno dos videogames da era 8-bits, mais uma gravação tosca, mais uma atmosfera de macumba psicótica e, é claro, a nossa personagem principal, Marli, intérprete disso tudo.

Ociosidade, boas influências - ou péssimas influências, dependendo do ponto vista – e uma ideia na cabeça são as explicações cabíveis para a criação desse personagem divertidíssimo e sinistro para alguns, é verdade.

Com letras desconexas e obscuras, efeitos de música eletrônica obsoleta e uma câmera gravando tudo ao melhor estilo Bruxa de Blair, a sensação que se instala nos desavisados é um misto de riso e pavor.

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Em meio a tanto plágio, repetição e vídeos de comédia stand up que não fazem rir nem o mais débil dos débeis, a história de Marli, ex-emprega doméstica baiana que, dirigida pelo filho de seus patrões na época, atua e canta em vídeos tão escrachados que chegam no limite do que se pode ser considerado trash e vira hit na internet, é formidável. Se macumba transformou-se em algo chiquê, tendência na alta sociedade, os vídeos e as músicas da rainha das trevas brasileira levam isso até às últimas consequências.

A personagem não tem sua história resumida apenas aos vídeos enviados para o canal no Youtube, mas também conta com uma série de discos virtuais disponíveis para download que dão mais veracidade à sua carreira fictícia.

Veja abaixo alguns dos videoclipes de Marli e descubra o que é magia negra, literalmente:





Laurie Lipton


Só posso descrever o trabalho da norte-americana Laurie Lipton como poderoso e incrível. Não importa para qual direção se olhe, o desenho sempre parece mirar em você de novo. Com imagens fortes, carregadas e corroboradas por um preto e branco eterno, Laurie transmite através de sua obra uma crueza surreal que se aproxima cada vez mais da realidade.





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Conheça mais sobre a artista em seu site oficial: http://www.laurielipton.com/

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Edward mãos de...


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Isso mesmo! Não duvide mais de nada neste mundo onde a criatividade não tem limites.

Edward Mãos de Pênis é uma paródia pornô de 1991 do clássico de Tim Burton Edward Mãos de Tesoura.

Assista abaixo uma aula de interpretação:



terça-feira, 11 de maio de 2010

Kill me


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Para me redimir do horrendo post anterior, ofereço a linda Julie Benz, na ficção atualmente interpretando a adorável Rita, dona de casa exemplar e esposa de um serial killer.

domingo, 2 de maio de 2010

The Brown Bunny e o boquete


The Brown Bunny é um filme de 2003, lançado oficialmente no Brasil em 2005 e assistido por mim em 2010, hahaha. Quanta relevância! Porém, mais relevantes ainda são os motivos que me fizeram assisti-lo: Chloë Sevigny (Daisy) e o famigerado boquete prestado ao seu companheiro Vicent Gallo (Bud).

É verdade que, durante a 1h e 30 min de exibição, o sexo oral explícito é a parte mais movimentada do longa morno e paradíssimo. Definitivamente não é um bom filme mas também não é ruim, tendo talvez nessa monotonia aparente os seus maiores méritos.

Grosseiramente poderíamos resumir o filme em um personagem chamado Bud, piloto de motocicletas, que passa boa parte do tempo vagando de um lugar para outro em seu furgão preto, tropeçando em algumas mulheres de procedência duvidosa, mas sempre buscando o seu verdadeiro amor, Daisy, a moça da qual não se tem mais notícias que nutre uma predileção por coelhos marrons, bichinhos que não costumam viver por muito tempo, mesmo com uma dieta alimentar especial.

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E seguindo num tom que me relaxou a ponto de quase me embalar pra dormir, The Brown Bunny vai andando, ou melhor correndo, acelerando, pelas estradas dos Estados Unidos, sem um destino. Muitas vezes as minhas impressões sobre as coisas divergem quase que totalmente das de outras pessoas. Ter sono enquanto se assiste a um filme no meio da tarde logo traduz-se em assistir um mau filme, o que comigo é o contrário. Filmes ruins me deixam agitado, puto da vida, louco para tirar o disco do reprodutor e jogá-lo pela janela. Fazer justiça!

Esse sono que vai nascendo e consumindo a alma, embriagando as pálpebras e confundindo os sentidos, é a vontade de estar dentro do filme, de ser mais do que espectador, de ser pelo menos objeto – um telefone na escrivaninha, uma jarra de suco sobre a mesa.

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Voltando ao longa, a câmera quase sempre dentro do carro, apontada ora para as estradas fantasmas, intermináveis e angustiantes, ora para a expressão facial sofrida de Bud, denota um vazio nauseante. Mais do que enjoar no vai e vem frenético das estradas, a sensação aqui é de enjoar na necessidade de busca de algo conhecido e ao mesmo tempo incerto, incorpóreo.

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O protagonista tem um olhar vidrado, desconcertado e, perdoem-me se isso se faz presente, mas não lembro de ter visto Bud esboçando um sorriso. A construção de um personagem apático e melancólico é bem executada.

O filme bem que poderia ser perturbador, claustrofóbico, intimidador, mas não tem ritmo pra isso. Falta frenesi. Como já citado anteriormente, acaba sendo até relaxante, mesmo com um roteiro e imagens que não transmitem otimismo.

Atenção - o trecho a seguir contém spoilers:

Restando 15 minutos para o término do filme, eis que Daisy surge num quarto de hotel e encontra Bud, o lobo solitário – é um nome bem canino mesmo -, que a aguarda sentado na cama. O aspecto frágil e doentio de Daisy refletem o seu vícios em drogas. Depois de algumas palavras, declarações de amor e recusas, Bud coloca a ferramenta para fora e faz Daisy trabalhar, num ato, digamos, um pouco agressivo, exercendo dominação e ao mesmo tempo arrependimento.

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A reposta definitiva para a busca incessante de Bud por Daisy, era a de que ela não mais existia. Não mais neste mundo. Há algum tempo o casal se divertia numa festa. Daisy se empolgou, bebeu demais e acabou sendo estuprada por um grupo de homens. Quando Bud entrou no quarto e viu a cena, não teve reação, ficou atônito. Daisy morreu e levou consigo o bebê de Bud que carregava no ventre. Estes fantasmas do passado confundem-se com uma consciência literalmente fodida, já que Bud na verdade fez um boquete em si mesmo.

O fim não é nem um pouco impactante, mas pelo menos esclarece e responde as perguntas que passam a habitar a cabeça do espectador durante mais de uma hora de esmo.

E agora, inaugurando o processo classificatório, uma escala de Andys Frenchs de 1 a 5. Já ficam avisados: quanto mais Andys felizes, melhor a obra, quanto mais Andys revoltados, pior a qualidade.

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Caleidoscópio


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Em meio à vastidão da internet, é capaz que você se perca e acabe atolado num lamaçal de mau gosto. Mas entre milhares de tristonhos blogs que brotam por aí, eis que um tal de La Dolce Vita, adestrado por Miguel Andrade, seu cão Boris e alguns monstros da Universal que certamente habitam sua casa, traz a luz no fim do túnel para os aficionado por cultural pop.

O blog em questão tem cheiro de mofo, mas isso no melhor dos sentidos, afinal, nunca se voltou tanto ao passado para relembrar as tendências, influências e beber dessa fonte, trabalhar uma nova roupagem, mesclar tudo num retrô hi-tech. Miguel faz isso bem. Tem a capacidade de acertar no alvo sobre o que é prazeroso de se ler, construindo um paradoxo interessantíssimo da era digital em resgate do pretérito; do layout nunca desbotado com as páginas de revistas amareladas pelo tempo.

Através de postagens rápidas e imagens bem garimpadas, a leitura nunca se torna cansativa e se você visitar uma vez, vai querer voltar. O que mais agrada no blog é a maneira como Miguel conduz as coisas, compartilhando conosco de forma íntima o que anda esquecido em nossa memória ou passa despercebido pelas prateleiras dos hipermercados. Transparece em cada post o prazer em trazer do limbo capas de vinis medonhas, dissertar sobre os filmes clássicos de Hollywood e escancarar imagens inusitadas que até então você desconhecia completamente. É um hobby exercido com grande estilo.

Para os novos visitantes do La Dolce Vita (cidadaoquem.blogspot.com), o que não falta é um arquivo repleto de informações e imagens – na sua grande maioria – para colecionar. Tome uma caneca de café, acomode seu traseiro gordo na cadeira e seja mais um leitor também.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Butterfly


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Cara, mesmo com esse cabelinho de cuia, ela é bonitinha. Diga se não é verdade, principalmente quando canta "i, i, i, i am your butterfly...":



Yo-Landi Vi$$er é o nome artístico da loirinha com jeito de coelho. Ela faz parte do trio de rap que parece vindo de outro mundo mas na verdade é da África do Sul, entitulado de Die Antwoord.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Relógio iluminado


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Acho que ainda não vi relógio de parede mais legal do que o da foto. É um cuco que, de hora em hora, mostra a carinha aterrorizante de Jack Nicholson em O Iluminado. Não é produzido comercialmente, mas valeria cada centavo pago. Demais!

terça-feira, 9 de março de 2010

Capaz




Eu não poderia deixar de registrar aqui o quanto esta imagem encheu meus olhos de alegria. Obrigado!

segunda-feira, 8 de março de 2010

Abrigo


Queridos leitores, leitoras, alminhas, zumbis e japoneses tarados que visitam o blog procurando algum tipo de sacanagem. Recentemente criei o "Ignição" - mas que tem no endereço um b, "bignição", porque já existe um maldito blog abandonado usando apenas "ignição" - para abrigar meus contos e poemas. O Só Lhe Dão Solidão já fazia bem o seu papel, tanto que eu havia postado neste querido espaço 11 contos. O conteúdo geral do blog, mais voltado para coisinhas legais da cultura pop que eu acho esporadicamente por aí poderia parecer destoar um pouco do espaço para literatura, mas na minha cabeça as coisas não funcionam assim. Acho que o que eu escrevo pode tratar de qualquer coisa que eu viva, experimente e conheça, sem perder a sua elegância, aliás, talvez até ganhando um potencial muito maior.

Enfim, por questão de organização e de ânimo, já que criar um blog sempre dá um up nas ideias, eu destinei o novo espaço a meus textos literários. Espero que quem passa por aqui, na maioria das vezes desavisadamente, caminhe um pouco pelo Ignição também. É uma sensação maravilhosa e gratificante saber que algum texto de sua autoria foi capaz de sensibilizar alguém e transportá-lo para a situação narrada. É incrível.

Compartilhem:

http://www.bignicao.blogspot.com


Abraços!

quinta-feira, 4 de março de 2010

Uhu!


Bom dia todo mundo. Este post era pra ter saído há tempos, mas como eu estava esperando o elemento x para ilustrar a postagem, houve esse pequeno atraso.

O BlogBlogs, um site bem legal que se propõe a agregar blogs e blogueiros, lançou uma promoção com ótimos prêmios. Foram dez vencedores que criaram posts sobre o tema "Simpatias e manias para começar o ano bem que já deram certo com você". Os prêmios eram um Macbook Pro, Nintendo DS, iPods e MP4s. Confesso que sonhei com o Mac, tanto que, sendo cético e nada místico como sou, me empenhei para criar algo interessante sobre o tema, o que foi bem difícil.

Se vocês bem se lembram, o post participante dessa promoção foi o "Simpatia da playlist". Primeiramente, procurei fugir dos clichês típicos das simpatias e costumes do fim de ano. Aí me veio a ideia de desenvolver a minha própria simpatia. Pensei em algo que realmente pudesse me fazer bem, funcionar para mim, ser divertido e prazeroso. Ligar músicas boas a épocas do ano foi o que de melhor me veio à cabeça, já que esses dois elementos são extremamente íntimos. Músicas podem ser eternas, atemporais, à frente de seu tempo, mas também sempre têm um quê de datadas, seja pela tecnologia dos instrumentos e da edição disponível na época em que são lançadas, sejam pelas tendências seguidas. Nós escutamos sons e identificamos gerações, sentimos cheiros, resgatamos lembranças, nos transportamos a outra dimensão. Partindo desta linha de pensamento foi que construí meu post.

O Mac do primeiro lugar não deu. Ficou com o merecidíssimo Diego Reigoto, do Polaroides Críticas, e eu, em quinto lugar, ganhei o iPod Nano. É um presente bem bacana. O mais engraçado é que ele é irmãozinho do meu, inclusive da mesma cor.

Sei que, melhor do que tudo isso é o reconhecimento. No meio de tanta gente legal, com boas ideias à mostra, ser escolhido é animador. Incentivos assim são sempre bem-vindos para gente como eu, que escreve por prazer, sem pressão, obrigatoriedade e censura.

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domingo, 28 de fevereiro de 2010

O avesso


Na mesma linha de criação da agência publicitária que usou o clássico de Kafka "A Metamorfose", a fotógrafa Dina Goldstein desenvolveu esta série de fotos que mostra os populares contos de fada às avessas. São situações onde as princesas enfrentam problemas e parecem ter a vida de pessoas comuns:

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Para conhecer mais sobre Dina e o seu trabalho, visite o site dela: www.dinagoldstein.com

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

BOCAABOCA


Nesses últimos dias eu estava acabado. Comia pouco e mal, praticamente não dormia. Permanecia o dia inteiro parado, sem me mexer nadinha. Ficava por um bom tempo sentado no banco de uma praça, fingindo ler um jornal que fedia a urina de rato. Meu corpo inteiro doía pelas horas e horas que eu passava com a bunda esmagada naquele banco duro e frio de madeira. Eu ficava lá sentado, na praça, talvez porque houvesse um pouco de esperança, mas não a esperança que eu desejava para mim. Era o tipo de esperança que eu esperava findar-se. Aguardava que as crianças parassem de brincar e fossem levadas para casa com um puxão de orelha violento; que os velhos dessem um fim no gamão e nas damas depois de uma tórrida chuva; que os animaizinhos fugissem das coleiras. Talvez eu quisesse ser a estátua daquela praça para que todos depositassem seus olhos em mim. Doce ilusão! Nem sendo uma das mais belas isso aconteceria. Pelo menos riscar-me-iam com pornografia; caralhinhos voadores e bucetas avoadas. Cravariam em mim os nomes dos amores, corações e desenhinhos bregas de quem se apaixona pela primeira vez. Isso eu sei...

Eu realmente odiava aquele jornal fedido sustentado pelos meus dedos sujos. Havia lido aquelas notícias milhares de vezes. Eram as piores notícias possíveis. Minha jaqueta tinha nos bolsos restos de salgadinhos e um pedaço de bolo esfarelado de alguma festa de aniversário. Tirava algumas migalhas e as jogava para os pombos, mas não tudo. Não queria me desfazer completamente dos restos. Isto não tem nenhum significado, acreditem! Talvez, bem no fundo, tenha. Se alguém prosseguir com aquelas análises bichas e intelectualóides, talvez ache algo, mas eu não pensava em nada.

Tudo seguia na tranquilidade doentia de sempre, mas um novo elemento rompeu com aquilo. Algo de novo e de bom e de verdadeiramente esperançoso trouxe anormalidade. Eu ficava olhando para esse algo como o público fita atento a bolinha em uma enérgica partida de tênis. Meus olhos lacrimejavam, fruto da emoção e da falta de piscadas. Era uma boca, maravilhosa, nunca apresentada a este mundo. Tenho certeza de que aquela boca nasceu naquele dia. Escarlate e vívida como o sangue fresco sob a luz do sol, aquela boca tornou-se o meu ponto de referência. Se eu fosse um monitor, sofreria de dead pixels.

Ai! Uma carne suculenta, de primeira, autossuficiente, serelepe, de outro mundo. Era delicada como uma pétala de rosa, trilhada por sulcos quase imperceptíveis mas mais reveladores do que as linhas de uma mão. A linha da vida e da morte, da sorte, na boca. Comecei a poetizar, a filosofar, a tagarelar em meu âmago, a enlouquecer. Obsessão, esta era palavra mais bonita que eu podia pensar.

Tudo sumiu. O blackout da vida se fez de uma vez e os velhinhos, os cachorros, as crianças, os casais, os ônibus, os bancos, os jornais, os sons, os semáforos, os carros, a fumaça, o sol e a lua, tudo, tudo isso transformou-se em plano de fundo; era uma tela borrada na qual cada pincelada não fazia a menor diferença. Havia apenas uma crença, era naquela boca perfeita de nascença.

A boca independente não precisa de sorriso, é sempre aquele morder de lábios indeciso que faz ela ser deslumbrante, que me deixa tão arfante. Podia agora mesmo passar um elefante do meu lado, mas eu continuaria vidrado, olhando para a boca banhada de batom, expressa num só tom. Quem dera eu ter antes conhecido essa boca que jurando fidelidade iria sorrindo para a forca.

Era como uma borboleta de asas imaginárias, que davam seus contornos de tempos em tempos materializadas pelas baforadas quentes em meio ao frio desalentador. Eu poderia ver aquela boca voando até mim em determinados instantes, pairando no ar como um beija-flor totalmente diligente em seu voo.

Com toda paciência do mundo eu esperei. Eu sabia que em algum momento aquela boca estaria no mesmo espaço do ar que me envolve e respiro. Passaram-se dias e a boca permanecia por lá, de longe, fingindo que eu não existia, mas já calculando a hora de aproximar-se. Deduzi que a dona de lábios tão divinos trabalhava naquela região, talvez como uma puta que faz barba, cabelo e bigode, talvez como uma ingênua secretária que foge dos assédios de seu patrão. Só sei que lá estava ela de segunda à sexta, às 9h da manhã. A boca descia do ônibus – que era só uma grande mancha amarela – às 9h da manhã.

Remexendo nos meus bolsos em meio aos farelos de alimentos encontrei um giz de cera. Sabe-se lá o que aquilo fazia no meu bolso. Talvez eu estivesse numa festa infantil. É a explicação mais plausível para os doces, salgados e o giz. Bem, me veio uma ânsia de rabiscar e retratar aqueles lábios suspensos no ar. Por coincidência o giz tinha a mesma coloração escarlate que eu via em minha frente. No jornal fedido e enrugado eu multipliquei milhares de bocas por entre as letras, manchetes, notícias, fotos. Passei por cima de todos os acontecimentos do mundo de 09 de novembro de 1991. O jornal era quase todo vermelho; quase todo sangue. O giz era quase todo nada. Sumiu não minha mão tão inexplicavelmente como apareceu no meu bolso.

Quando voltei à mínima consciência possível, o elemento x vinha até mim. A língua correu pelos dentes como sendo uma preparação. Era eu mesmo? Era minha direção? Com tantos espalhados pelas ruas, vestidos com seus ternos confiáveis, porque ela trilharia o caminho até um aparente mendigo?

“Bom dia. Você pode me informar que horas são?”, perguntou.

Perdi a noção de tempo e espaço. Eu não tinha relógio. Olhei para a torre da igreja: os ponteiros parados. Procurei algo no jornal. Havia apenas um pequeno espaço não rabiscado: 09 de novembro de 1991, “O dia em que eu fiquei mudo”.